Inovação no varejo na prática

Conversamos sobre inovação estratégica no varejo com Laureane Cavalcanti, fundadora da Deepdive Consultoria Estratégica

No terceiro episódio da segunda temporada do nosso podcast, Nos Corredores do Varejo, Juliana Piai, sócia da Fronte, conversou com Laureane Cavalcanti, fundadora da Deepdive Inovação Estratégica. Laureane ocupou posições de liderança em grandes corporações, conduzindo projetos de cultura e responsabilidade corporativa, transformação digital e e-commerce. Foi diretora executiva de marketing e comunicação e head de inovação em uma das principais administradoras de shopping centers do Brasil e da Europa.

Nossa dúvida, para ela, era a seguinte: Com tantos eventos inspiradores neste começo de ano, como a NRF 2023 e a SXSW, como identificar quais tendências seguir e o que faz sentido para o mercado brasileiro?

Confira os principais trechos desta conversa.

A gente viu, este ano, uma grande retomada de eventos para falar de inovação. Tem o SXSW, teve a NRF, a gente vai ter WebSummit no Rio, tem muita coisa acontecendo. Qual é a melhor forma de acompanhar tudo isso? E mais: a gente tem que acompanhar tudo isso?

Laureane: Eu sempre questiono o excesso de fontes. Acho que os eventos são superimportantes e costumo dizer, inclusive, que os eventos são um lugar pra gente estar, pra se provocar a mudar, se transformar e atualizar. Mas a gente tem que ser uma audiência muito seletiva e crítica, no sentido de escolher o que faz sentido para o nosso negócio, para a nossa empresa. Acho que ir para todos os eventos do ano faz primeiro você dedicar muito tempo para a escuta, ter pouco tempo para a análise e eu temo a pulverização de iniciativas e estratégias.

A gente tem que ter uma segurança muito forte da nossa estratégia, dos nossos objetivos de negócio. E pegar essas tendências, tudo o que se escuta, e fazer o match. Será que faz sentido para a minha estratégia? E às vezes até revisitar a estratégia em função do que se escutou.

Agora mesmo, depois da NRF, eu vi vários boletins de tendências para atualizar um curso de transformação digital para o varejo. Eu fui beber naquelas fontes todas para entender o que faz sentido, na nossa opinião, com tudo o que a gente acredita, com tudo o que a gente sempre estudo. O que faz sentido como tendências 2023 para o varejo. A gente vai escutar de tudo, mas não dá pra fazer de tudo.

Como que você seleciona esses boletins de inovação?

O primeiro critério é avaliar o quanto aquilo faz sentido, o quanto é modismo. Na medida em que você vai seguindo uma newsletter, vai percebendo. Quando começa aquela enxurrada de uma novidade que canibaliza a anterior, eu já acho que é meio forçado. Então esse pra mim já o primeiro critério, se perguntar: É relevante o que esse pessoal está falando ou eles estão só replicando o que os outros falam?

A segunda coisa é ver quem escreve, qual é a atuação, o jeito de escrever. Eu levo inovação a sério num nível de não me deixar iludir por qualquer primeira novidade. É como se eu tivesse descobrindo uma fake news. Se você vê uma fake news, você se pergunta: ‘faz sentido eu acreditar nisso aqui?’ Então o mesmo processo que eu faço para descobrir se é fake news ou não, eu faço para seguir ou não um meio, um veículo.

O que é inovação no varejo?

É resolver problemas, de uma forma diferente da qual você sempre resolveu. E nesse processo, a tecnologia é um meio de comunicar, resolver e dar fluidez num processo. Eu vejo a inovação como uma forma diferente de olhar para uma situação e colocar uma série de fatores que ajudam você a pensar de uma forma diferente. Seja empatia, seja trazer visões externas para junto, pra você conseguir olhar.

Passa sempre pela resolução de algum problema?

Quase sempre. Porque quando a gente imerge num processo que não está vendendo bem, não está atingindo um objetivo, você vai desconstruindo pra trás e, quando você chega lá atrás, ou você tem um processo que está demorando muito, ou tem muita refação, ou uma técnica que não está funcionando, falta de empatia etc.

No que você acha que as empresas de varejo diferem de outros mercados quando o assunto é inovação?

É o senso de urgência. O varejo está sempre desesperado pela próxima novidade. E eu falo a palavra desesperado porque eu acho que é pejorativo mesmo. Estar aberto a todas as novidades que aparecem te deixa sem estratégia, confuso, sem planejamento. Porque na medida em que sai uma novidade hoje, você já quer implantar amanhã, você já rompeu todo o seu planejamento estratégico. É necessário ter uma estratégia de inovação. Não é simplesmente ter uma estratégia de vendas.  E é necessário porque a estratégia de inovação vai te dizer que tipo de pessoas e que tipo de habilidades essas pessoas precisam ter, como são seus processos, para entender onde tem oportunidades em que a inovação pode ajudar. É preciso ter orçamento pra fazer isso.

Então eu acho que na inovação a gente tem que ter um pouco mais de cautela, porque precisa e demanda planejamento, estratégia. E esse senso de urgência atropela bastante. Atropela prioridades de investimento, times dedicados.

Uma vez que a empresa tenha esse planejamento, como tirar a ideia do papel e efetivamente começar um processo de inovação no varejo?

O planejamento normalmente sai das oportunidades ou das necessidades que foram encontradas em alguma jornada. Ou na jornada do ano anterior, ou na jornada do cliente, ou na de um parceiro. Então eu pressuponho que o planejamento bebeu nessa fonte de pesquisa, de estudo, de entendimento de onde tem fricção, onde tem problemas para serem resolvidos. E o que eu vejo é que a partir do momento que você tem essas observações feitas, dos pontos de fricção, das oportunidades, desenha-se o planejamento. Mas o que surge, normalmente, é uma lista de iniciativas, que a gente chama de roadmap. Em seguida vem uma priorização, que vai beber no critério de geração de valor para o negócio e do tempo de tirar do papel.

Então: Custo, recursos e afinidade com a estratégia, os objetivos daquele período para o qual o planejamento foi desenhado. Dizer, ok, das 12, em 2023 eu vou tirar 4 do papel, com efetividade. Não adianta jogar um roadmap cheio de iniciativas porque a gente nunca vai conseguir concretizar.

Outro capítulo essencial para tirar as iniciativas do papel é a capacitação dos times. A gente adotou a metodologia de design como forma de trabalhar porque o design ajuda a entender o problema, ter empatia com as pessoas que vivem o problema e, junto com metodologias ágeis, começar a rodar modelos de desenhar e implementar o projeto. Com ciclos de melhoria rápidos, semanais. De colocar para rodar, em uma semana olhar para os indicadores, analisar a performance, voltar, corrigir e voltar a fazer.

Como priorizar quando você tem várias iniciativas ao mesmo tempo?

Normalmente os critérios que a gente, como Deepdive, utiliza são:

  • geração de valor para o negócio;
  • adaptabilidade/afinidade com a cultura da empresa;
  • recursos (se você tem pessoas suficientes ou vai precisar contratar);
  • orçamento;
  • prazo pra sair do papel.
Recentemente a Deepdive fez um post sobre inovação aberta. O que é essa metodologia, onde ela se aplica e quais são as empresas que podem usar?

Todas as empresas podem usar inovação aberta porque é a forma mais rápida e mais viável para uma empresa tradicional. É uma forma econômica de você trazer parceiros para dentro da sua empresa em prol de um único objetivo, de resolver um único problema, um desafio. Desenvolverem juntos, de mãos dadas, com habilidades mixadas, do seu time, que conhece profundamente o seu negócio. Mas que também, por isso, tem amarras. ‘Putz, vai mudar, vai ficar diferente, não queria que mudasse agora’. E que também ainda não está capacitado com as metodologias como as que a gente citou aqui agora.

Primeiro você tem que identificar os desafios mais relevantes e, a partir desses desafios, você faz um convite a um ecossistema de parceiros, que pode ir desde estudantes, universidades, startups, consultores externos, ou parceiros de negócios. No caso do shopping center, o lojista é um excelente parceiro de negócios pra fazer parte de um projeto desses. O cliente é outro excelente parceiro. E na medida em que você vai trazendo outros stakeholders pra dentro da solução do seu problema, você ganha na visão de vários ângulos (deixa de ser apenas o seu olhar).

Vale a pena ser o primeiro e sair na frente, ou esperar quando todo mundo já testou uma novidade, para errar menos?

Depende da cultura da companhia. Tem empresa que nasce preparada, que tem líderes que seguram a onda de um posicionamento um pouco mais arriscado, ágil, veloz. E tem empresas que dizem: não, não quero. Eu quero ver se isso funciona. E eu quero fazer o meu, melhorado. Então vai assistir o concorrente fazendo, ou alguém do mercado fazendo, e dizer: ‘beleza, vi que eles aqui deram umas titubeadas, vou fazer o meu já melhorado’. Tem prós e contras. A única coisa que eu não defendo de cara quando vai falar em inovação, sendo ela disruptiva, incremental, que é uma melhoria de processo pontual, é em fazer sozinho.

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