Varejo de vizinhança em alta no Brasil

A APAS (Associação Paulista de Supermercados), mudou recentemente a metodologia de uma pesquisa anual sobre o setor de supermercados no Brasil para incluir no estudo o varejo de vizinhança, formado por micro e pequenos empreendedores. E essa mudança levou a um incremento de R$71 bilhões no setor de supermercados.

Para nos aprofundarmos nesse movimento e na importância do varejo de vizinhança no Brasil, Fábio Caldas, sócio da Fronte, conversou com Felipe Queiroz, economista chefe da APAS (Associação Paulista de Supermercados). A seguir estão os principais trechos dessa conversa, que está disponível na íntegra em nossos canais no Spotify e no Youtube.

O que levou vocês a incluir o varejo de vizinhança na pesquisa anual sobre o setor? Vocês já tinham uma percepção do crescimento desse pequeno varejista?

O setor supermercadista brasileiro tem uma peculiaridade que o difere muito outras partes do mundo. Por exemplo, nos Estados Unidos, o setor é altamente concentrado. São quatro, cinco redes que dominam o mercado. O mesmo acontece na Europa. Só que no Brasil o setor é bem diferente. Temos supermercados conhecidos apenas regionalmente mas que têm uma importância muito grande para o setor. Por exemplo, o grupo Mateus, que aqui em São Paulo pouquíssimas pessoas conhecem, mas no Nordeste ele é forte. O Coque, que é extremamente forte em Santa Catarina. A Rede Confiança, muito forte no interior.

Por que eu estou falando isso? Porque esse universo das redes médias e grandes é um universo bastante polifônico, diversificado. E o mesmo acontece com as redes de menor porte, onde está todo um ecossistema de mercados de vila, pequenas mercearias, que fazem com que esse setor seja um setor pujante, crescente, altamente dinâmico e que às vezes é ignorado por algumas estatísticas.

Até então, nós levávamos em consideração, no nosso levantamento anual, principalmente as redes de pequeno, médio e grande porte. Porém, as micro empresas e os MEIs quase sempre ficavam excluídos dessas contagens. Não apenas nossa, da Abras também. E há um grande esforço do setor no sentido de conhecer quem são esses pequenos e contribuir com o crescimento desse mercado. O mercado é bastante diverso, como havia dito, e tem espaço para muitos.

Aquele pequeno mercado de vila tem uma importância significativa para aquele bairro, para fornecer uma compra de reposição. Esse pequeno supermercadista acaba comprando no atacarejo num pequeno distribuidor, então tudo isso faz parte desse grande ecossistema que é o setor supermercadista. Estimamos que a participação desses microempreendedores excede os 70 bilhões só nesse último ano.

Por que o interesse da Apas pelo varejo de vizinhança neste ano?

90% dos grandes mercados surgem dessas pequenas vendas que estão espalhadas Brasil afora. Então, conhecer como eles surgem onde estão, é o primeiro passo para promover ações para contribuir com que essas empresas consigam transpor aquele período que o Sebrae e outras instituições vão dizer que é se vai conseguir sobreviver ou não. Desconhecer esses pequenos impede que tenha ações concretas para estimular o desenvolvimento do setor. Além disso, são esses pequenos que mais precisam de um apoio institucional.

Por que as grandes redes estão investindo em varejo de vizinhança?

A própria pesquisa que nós apresentamos na APAS Show mostra que nós tínhamos um perfil de compra durante o período hiperinflacionário que mudou. Antes, quando recebíamos o salário, já íamos ao supermercado e fazíamos a compra do mês, para não perder poder de compra. As compras eram maiores, sempre fechadas no mês, e as compras de reposição eram muito menores do que são hoje. Dado o controle inflacionário que temos hoje, aquela participação da compra do mês diminuiu e as pessoas começam a ir mais vezes aos supermercados, fazer a compra de reposição. Para muitas redes a compra de reposição está sendo o fiel da balança e tem movimentado o setor.

São mais de 100 mil MEIs no setor supermercadista. Quem são esses empresários?

Eles têm uma parcela importante em números absolutos, mas em faturamento a participação deles ainda é pequena. Então, eles acabam sendo clientes dos atacarejos, disputam parte das vendas com essas lojas de vizinhança, e muitos estão em regiões da cidade que têm pouco atendimento. Cada região acaba tendo uma característica muito peculiar.

O perfil dos atacarejos está mudando?

A teoria econômica tem um teórico russo, Konkratiev, que criou a teoria dos ciclos econômicos. Então, era o ciclo de Konkratiev. Ele dizia que a economia cresce, chega num pico, depois tem uma crise, cai, depois se recupera. É como uma montanha russa. Ficou conhecido como o ciclo de Konkratiev. Assim é um setor supermercadista. Uma parte está no atacarejo, aquele local básico, prateleira com pouca arrumação, produtos empilhados. Depois há uma demanda natural do setor e ele começa a investir. Primeiro ponto, só é preço, depois, conforme ele perde clientela, acaba migrando e oferecendo muito mais serviços. Melhora a loja, melhora a disposição dos produtos, amplia a oferta e começa paulatinamente rumando no sentido de um hipermercado. Por quê? Nós questionamos o que leva um cliente ao supermercado. Primeiramente é o preço, mas também tem o atendimento, ambiente, tamanho dos corredores, ar condicionado, iluminação. Então, gradualmente, não só os atacarejos, mas esses pequenos mercados, à medida que eles vão crescendo, eles vão investindo em conforto, em oferecer mais serviços. E os atacarejos também vão migrando.

O setor de supermercados está preparado para o envelhecimento da população que vem sendo mostrado pelo Censo?

Sim, o setor tem olhado com bastante atenção e procurado observar as mudanças demográficas a partir de duas perspectivas. Não apenas melhorar a acessibilidade, ter um tratamento mais humanizado, mas também entender que se trata de um perfil diferente, de uma população ativa, qualificada, que trabalha. E o setor tem adotado ações para ampliar o volume de contratações de pessoas mais sênior. Por um lado, tem a perspectiva de olhar a mudança do perfil da sociedade e, por outro, mantê-los no mercado de trabalho.

Vocês têm observado uma concentração maior de grandes grupos no setor supermercadista ou uma pulverização?

Tem um processo acontecendo atualmente que é a entrada de capital estrangeiro. Esse capital entra de diferentes maneiras, tanto com a abertura de novas lojas, entrada de novos concorrentes, como por meio de fundos que podem comprar supermercados. Então, tem fundos de investimentos que estão comprando redes regionais na tentativa de aglutinar o setor, concentrar.

Outro ponto é que eu havia dito que o setor é bastante pulverizado e opera quase que numa dinâmica de concorrência perfeita. Ou seja, não tem dois ou três supermercados que têm o poder de influenciar o preço. Todos os dias surge um pequenininho que vai crescendo, ganhando corpo, compra outro pequenininho, cria uma central de negócios, um grupo, uma rede, e aí, dali um pouco ele tem uma expressão microcósmica naquela região. O setor tem esses dois movimentos que acontecem concomitantemente. Por um lado uma tentativa de concentração, mas por outro lado tem os pequenos que também vão crescendo, então cria essa dinâmica.

Ouça a entrevista completa em nossos canais no Spotify e no Youtube.

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