O impacto da Inteligência artificial no varejo é um fato. Mas qual é a melhor forma de lidar com ela? De acordo com o Fórum Econômico Mundial, até 2025 a automação eliminará 85 milhões de empregos, ao mesmo tempo que criará outros 92 milhões. E um estudo da Universidade de Oxford prevê que, daqui a 10 anos, 47% dos atuais empregos serão transferidos para robôs. A Amazon, por exemplo, tem contratado mais de mil robôs por dia para trabalhar nas diversas áreas da operação, sendo que atualmente eles têm 556 mil robôs e 1,5 milhão de colaboradores, mais ou menos.
Nos aprofundamos nesse universo inovador com o especialista Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, membro do Conselho de diversas empresas de varejo e autor do livro Inteligência Artificial no Varejo, lançado recentemente. Eduardo generosamente compartilha insights valiosos para auxiliar na implementação da IA de forma eficaz e com baixo custo. A conversa na íntegra você ouve em nossos canais no Youtube e no Spotify.
Pensando no futuro do varejo, dá pra não se assustar com esses números?
Eduardo: Não. Mas eu tenho dito para muita gente que eu acho que diante, não só da inteligência artificial, mas de todo esse conjunto de tecnologias que nos cercam e que vem cada vez mais transformando o mundo, as empresas e as nossas vidas, a gente tem duas opções: se apavorar ou se apaixonar. Eu preferi a segunda opção e queria fazer um convite a todos que também o façam. É mais fácil, mais interessante e mais inteligente.
A IA vai substituir o emprego de muita gente, não?
Eduardo: Se a gente for olhar o mundo hoje, Europa, Estados Unidos, Brasil e Ásia, a gente não tem um problema de desemprego estrutural, com todas as tecnologias que até hoje chegaram, desde a revolução industrial, passando pela invenção do computador, internet, redes sociais. Até agora a gente não gerou o que a gente chama de desemprego estrutural por conta de aumentos de produtividade e robotização. A inteligência artificial, talvez, seja até hoje, a que mais vai gerar dúvida sobre isso. Eu confesso que eu também tenho algumas dúvidas, porque ela atua em dois ângulos. Existe um primeiro ângulo onde tudo fica mais inteligente, a gente elimina desperdícios, torna os processos das empresas muito mais inteligentes. (…)Agora, o que não se sabe é: Nós vamos gerar novas indústrias, novos setores? A economia vai ganhar uma outra dimensão? É difícil falar.
Você começa o livro falando um pouco sobre as origens da inteligência artificial. Desde quando ela vem sendo desenvolvida e como é que a gente chegou aonde a gente está hoje?
Eduardo: Para a maior parte de quem estuda inteligência artificial, se atribui o nascimento dessa tecnologia a um texto publicado por Alan Turing em 1950. Só que por que tanto tempo se passou e agora que isso se torna mainstream? Porque, desde 1950 até dois anos atrás, os viabilizadores da IA não estavam presentes. Existem quatro viabilizadores que se formaram e tornaram-na viável.
Primeiro: A quantidade de dados que o mundo gera hoje é o primeiro viabilizador. Segundo: Hoje, com a nuvem, cada dia mais está tecnicamente viável e economicamente viável guardar esses dados. O terceiro é circular o dado e aí eu estou falando de banda de internet, de cabeamento ou de 5G. Agora o quarto é que é o game changer: São os super computadores. Não adianta nada eu ter tudo isso se eu não tiver um super computador que pega esse dado e processa ele com uma super potência. E aí entra um tema que tem mudado o jogo, que são os chips, os super processadores.
Quais competências a gente tem que desenvolver para conseguir abraçar a inteligência artificial no futuro?
Eduardo: Imagina que a Boeing está querendo usar a inteligência artificial generativa na sua área de manutenção. Posso pegar o melhor engenheiro de prompt do mundo, se ele não tiver repertório de manutenção de avião, ele não vai funcionar. Então, precisa pegar um bom cara que tenha repertório de manutenção de avião e dar a engenharia de prompt para ele. Um repertório técnico, ele continua sendo importante, porque é o repertório técnico mais a engenharia de prompt que vai dar uma boa conversa com o modelo. Acho que essa é uma boa notícia.
Segundo: eu preciso saber fazer perguntas. Porque, basicamente, a interação com os modelos se dá em formas de perguntas. Perguntas de contexto. Se eu não souber perguntar, eu não vou ter boas respostas.
Terceiro, eu preciso saber falar bem os idiomas. Isso parece básico, mas, de novo, é uma competência que não deixou de ser importante. Eu quero liderar a inteligência artificial, eu quero que ela seja o meu copiloto, eu não quero ser pilotada por ela. Então, eu preciso dominar essas questões. E curiosidade.
O que garante que a gente vai conseguir usar a inteligência artificial da melhor forma no futuro do varejo?
Mindset, estratégia. Tem gente que fala que quer ter o cliente no centro, mas na verdade tem os processos e os controles no centro. Numa jornada, nenhum problema de eu criar uma URA inteligente, de eu criar uma forma digital de atender via WhatsApp, que as primeiras trocas de mensagem com você sejam um bot, desde que isso seja feito de forma inteligente. E que eu tenha sempre você no centro e não um ganho de produtividade exagerado.
Quais aplicações você vê para a IA no futuro do varejo?
Precificação. Um supermercado, por exemplo, trabalha com 20 mil itens em média. É impossível você precificar de uma forma inteligente 20 mil itens que mudam todos os dias. Precificar de forma inteligente demanda pesquisa, acompanhamento, monitoramento e ajuste diário. É impossível fazer isso sem muita tecnologia.
O segundo exemplo é todo o processo de sales, planning e compras. Todo o processo de previsão, compras, abastecimento que envolve estoque e rupturas. Então o varejo sofre muito com gestão de estoques e rupturas e os algoritmos que vão definir melhor o que comprar, quando comprar, quanto comprar. Vão ajudar demais a cadeia e tornar essa cadeia que envolve desde matéria-prima, fornecedor, varejo, loja, para ser muito mais inteligente, para que a gente tenha estoques mais inteligentes, faltando menos produto. Nesta área eu vejo a inteligência artificial nem começou.
A entrevista completa e exemplos práticos de como incorporar a IA ao seu e-commerce, por exemplo, estão no podcast Nos Corredores do Varejo, no Youtube ou Spotify.