Glauco Humai, presidente da Abrasce, é uma voz de destaque no mercado de shopping centers no Brasil. E nós o trouxemos para um bate-papo em nosso podcast, Nos Corredores do Varejo, num momento crucial para o setor, com aumento do investimento em shopping, movimentações interessantes de fusão no setor varejista e crescimento dos outlets no país. Falamos sobre tudo isso e também sobre a visão de futuro que Glauco tem para o setor. Os principais trechos dessa conversa estão a seguir e a entrevista completa você ouve em nosso canal no Spotify.
Ao mesmo tempo que a gente vê os shopping centers crescendo, tendo bons resultados, indo bem. Eu olho para o varejo, para os lojistas, e vejo uma quantidade enorme de lojas entrando em recuperação judicial, tendo dificuldade nesse momento. Qual é a sua visão disso?
A gente tem, evidentemente, casos do varejo, que são expoentes, que chamam a atenção, mas em um mercado tão pulverizado e amplo como o varejo, com centenas e milhares de operações grandes, médias, pequenas, nacionais, regionais, locais, municipais, o mix do shopping tem 300, 400 operações. Ele não é exposto a uma outra marca de maneira muito relevante.
Eu acho também que algumas marcas não estão conseguindo lidar essa nova dinâmica do consumidor, menos presente no ponto físico, mais presente virtualmente, mas querendo estar presente fisicamente, desde que seja algo que o atraia, que seja relevante. E alguns modelos de negócio que tiveram alavancagem muito grande, em momentos de incertezas sofrem mais. Mas o varejo em geral, sobretudo as operações de shopping, continuam crescendo em uma curva positiva.
Os shopping centers estão conseguindo se beneficiar desse crescimento do e-commerce? Ou ainda falta um chão para caminhar?
Glauco: Toda vez que o varejo cresce é bom para o shopping. Varejo de rua, varejo eletrônico, varejo de feira, de franquia, é bom. Os shoppings são muito rápidos, apesar de serem transatlânticos, de cada movimento precisar ser feito com muita antecedência. A gente conseguiu perceber essa mudança no varejo bem rapidamente, adequou as nossas operações e vem orientando e trabalhando em parceria com os lojistas, com as grandes cadeias, com pequenas.
É uma preocupação da Abrasce integrar novos empreendedores ao mercado de shopping centers?
Glauco: Essa preocupação foi maior até no passado, porque você tinha um mercado com mais oportunidades. Nos últimos 10 anos foram construídos no Brasil praticamente 200 shoppings. O shopping basicamente vendia produtos, sem essas questões de lazer, entretenimento, alimentação, etc. E não necessitava tanto de um complexo multiuso, com torres comerciais. Era uma operação, também entre aspas, mais simples, com mais oportunidades, menos concorrência, menos riscos. (…) Então era uma preocupação nossa qualificar esse empreendedor, estar muito perto para mostrar o caminho do shopping, com muitos cursos, muitas orientações, muitos livros, cartilhas, viagens internacionais, etc.
Agora, no cenário de hoje, não é qualquer empreendedor que se aventura no mundo do shopping, porque a concorrência é maior tanto pela quantidade de shoppings como também pela internet, pelas compras online. A possibilidade de terrenos também é menor, o custo é maior, a complexidade de operação é maior, não só pela qualificação do mix, mas também pela diversidade, necessidade tecnológica, inteligência artificial, big data, uma operação cada vez mais centralizada. Então, são menos pessoas de fora que resolvem empreender.
O Brasil tem cerca de 1.400 lojas instaladas em 17 outlets espalhados pelo país. Você acha que esse é um número ainda pequeno para o Brasil? O mercado de outlet ainda tem muito fôlego para crescer ou a gente já está começando a chegar num limite?
Glauco: Olha, eu acho que é um número adequado para o momento atual do Brasil. Há previsão de inauguração de mais outlets nos próximos anos (…) e eles estão passando por alterações na sua dinâmica, com operações de lazer, entretenimento. O Brasil é sui generis, a gente talvez esteja vanguarda do que hoje existe de mix em shopping, o Brasil basicamente inventou isso, e a gente está fazendo esse mesmo processo em outlets. Já tem algumas operações de parques de diversão em outlets, cinema, operações gastronômicas, coisa que há cinco anos, três anos atrás não tinha.
Quais são as grandes batalhas que a Abrasce está encampando junto ao governo, em decisões judiciais?
Glauco: O grande foco agora é a questão da reforma tributária. Desde antes da pandemia, a gente já participa do grupo de discussão da reforma tributária. Ele parou, evidentemente, por conta da pandemia, depois teve a mudança de governo e agora, mais recentemente, voltou a carga com a aprovação da PEC. Mas antes de falar da reforma tributária, a gente tem um papel muito grande de defesa do setor em todas as câmaras municipais. São basicamente 250 cidades que têm shopping no Brasil, então, todas essas 250 câmaras municipais, nas 26 Assembleias Estaduais, mais a Assembleia Distrital, em Brasília, além da Câmara e do Senado. Nos municípios e estados tem cerca de 2 mil projetos de lei que impactam o setor. No Senado e na Câmara já tem perto de 800 projetos . A gente tem uma estrutura institucional, de relações com o governo, que faz esse monitoramento e quando a gente precisa entrar com alguma ação, a gente questiona judicialmente.
De um modo geral, a reforma como ela está se desenhando, vai ser boa para o varejo?
Glauco: Para o setor de shopping, dentro do que é possível, acho que vai ser positiva. Todo mundo gostaria de pagar pouco imposto, mas isso a gente sabe que é inviável porque as contas não fecham. Então a gente está tentando chegar a um equilíbrio para não haver um aumento de carga muito radical, de 10 para 30, de 5 para 40, de 20 para 60. A gente está lutando e acho que está sendo bem ouvido.