Qual é o impacto das bets no varejo 

O brasileiro gasta, segundo o Banco Central, entre 18 e 21 bilhões por mês em jogos e apostas esportivas. O que estamos deixando de comprar e para onde vai esse dinheiro? Convidamos a economista e historiadora Deborah Magagna para um bate-papo sobre o impacto das bets no varejo brasileiro. A conversa na íntegra está em nosso podcast, Nos Corredores do Varejo, e os principais trechos estão a seguir. 

Qual é o impacto das bets no varejo e na economia brasileira como um todo? 

O primeiro ponto que eu queria trazer é que a gente não sabe o tamanho do buraco, porque temos diversas estimativas com bases em metodologias diferentes. O segundo ponto é que essas empresas [as casas de apostas] não estão no Brasil. As mais conhecidas aqui já foram compradas por conglomerados de fora do Brasil. Então certamente esse dinheiro não fica aqui. O que o brasileiro está gastando com as apostas sai do país. Vira um dinheiro que não fomenta nada aqui no nosso Brasil. 

Sempre existiram apostas esportivas. Qual é a diferença, desta vez?  

A partir do momento que há uma propaganda massiva em rede nacional, campeonatos de futebol patrocinados por casas de apostas, times patrocinados por casas de apostas, isso entra na casa das pessoas como uma coisa divertida. Aliado a isso, está no celular, na mão. Então, ela pode, numa facilidade muito grande, acessar e fazer uma aposta. Ou jogar num slot game. Sem contar outras denúncias que a gente de, por exemplo, celulares mais baratos já virem com esses aplicativos de apostas instalados. É uma coisa vendida como tão legal, tão divertida, que as pessoas não conseguem nem pensar que aquilo é prejudicial. E elas confiam plenamente nas casas de aposta.  

As bets impactam mais as classes CD e o comércio popular, ou já existe algum estudo mostrando que mesmo a classe AB também é impactada? 

Uma pessoa com renda menor, normalmente gasta tudo que ganha. Então, se você aumenta a renda dela, provavelmente ela vai consumir mais. É por isso que existem tantos programas sociais voltados para pessoas de baixa renda. Porque quando você aumenta a renda, ela tem mais tendência de gastar. E gastar vai causar impacto, que a gente chama de multiplicador, porque uma renda vai gerando outra.

Quando a gente fala que as bets impactam as pessoas mais pobres, é porque elas vão pegar parte da sua renda, que provavelmente já é mais estreita, deixar de gastar em outras coisas para gastar em aposta.  É um dinheiro que faz parte da renda dessa pessoa, que poderia ser utilizado para qualquer outro gasto e que está indo quase pelo ralo. Sem contar o problema social, das pessoas ficando inadimplentes por conta das apostas. Isso impacta os setores econômicos e vai impactar o varejo também, principalmente de comércio. 

Há dados mostrando de onde vêm os recursos que estão sendo usados nas apostas? 

São recursos que poderiam ir para bares, restaurantes e delivery, ou para a própria poupança. Eles estão deixando de poupar para colocar o dinheiro em aposta. E também deixando de comprar roupas e acessórios, 43%.

O varejo entendeu esse impacto? 

Eu acho que a gente só vai ter real dimensão quando tiver regulamentação. Aí a gente vai ter ideia de quanto o brasileiro realmente gasta e quanto isso vai impactar no nosso PIB. Quando os setores começarem a perceber que estão perdendo com isso, que as pessoas estão deixando de consumir e que elas estão se endividando por conta de aposta, talvez só depois que tudo isso acontecer, as pessoas vão ter essa noção. 

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