As apostas online (bets) se consolidaram como um fenômeno de proporções gigantescas no Brasil. Elas movimentam um volume financeiro impressionante e, por isso mesmo, impactam diretamente no varejo e na economia nacional. Um estudo recente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), discutido no podcast “Nos Corredores do Varejo”, vem jogar luz – e dados – sobre esse impacto.
No episódio “Bets já tiraram R$ 103 bi do varejo brasileiro”, Fábio Caldas recebeu Felipe Tavares, economista-chefe da CNC, para destrinchar os números e conclusões do estudo realizado pela entidade para entender como as apostas esportivas estão impactando o comércio nacional.
Bets e o custo bilionário para o varejo
A pesquisa da CNC estima que as apostas online desviaram R$ 103 bilhões do varejo brasileiro apenas em 2024. Esse valor representa um dinheiro que deixou de circular no comércio tradicional, afetando desde grandes redes até o pequeno lojista. Como o bolso do consumidor é um só, a alocação de recursos em bets está substituindo gastos essenciais e afetando diretamente o resultado do varejo.
Freio no crescimento e inadimplência em função das bets
Felipe Tavares aponta que o montante movimentado pelas apostas pode custar ao Brasil um potencial de crescimento de até 1,5% do PIB. Ou seja, o país luta para crescer 2% ao ano mas poderia estar crescendo 3,5%. Na sua visão, o impacto das bets é sinal de alerta gravíssimo para o desenvolvimento econômico.
Outro dado preocupante revelado pela pesquisa é o da inadimplência. Cerca de 1,8 milhão de famílias entraram em situação de inadimplência por conta das apostas online. Esse endividamento massivo restringe o acesso ao crédito, que é o motor do consumo na economia brasileira, e tira essas famílias da base ativa de consumidores por um longo período.
O perfil do apostador
Segundo a CNC, o perfil do jogador é formado principalmente por mulheres de mais baixa renda e escolaridade. Entretanto, a pesquisa também mostra que cerca de 70% dos universitários, com idade média de 21 anos, apostam regularmente no Brasil. Desses, 42% já enfrentam dificuldades financeiras.
Felipe Tavares critica a estratégia de marketing predatória que tem posicionado as bets não como uma modalidade de jogo de azar, mas como uma opção de investimento, uma “salvação” para o orçamento familiar. Essa abordagem, muitas vezes promovida por influenciadores digitais que usam aplicativos “fake” para simular ganhos, leva milhões de brasileiros a decisões financeiras equivocadas.
A pesquisa da CNC indica que o público feminino de menor renda e escolaridade é o mais vulnerável a essa sedução. A facilidade de acesso e a promessa de ganhos rápidos têm um apelo perigoso para quem já enfrenta dificuldades financeiras. Ao contrário de outros países, onde a casa de aposta é claramente reconhecida como tal, no Brasil o marketing dessas casas promete ganhos camuflando os riscos inerentes.
Regulamentação das bets
As bets são legais no Brasil desde 2018, mas a regulamentação ainda é um ponto crítico. Comparativamente, em países como os Estados Unidos, há uma maior maturidade no mercado de apostas e uma legislação mais robusta, que proíbe o marketing predatório e protege apostadores compulsivos, por exemplo. No Brasil, o cenário é mais complexo. Por isso a CNC defende direcionar as apostas para cassinos físicos, onde o controle sobre menores, jogadores compulsivos e lavagem de dinheiro seria mais fácil, além de gerar desenvolvimento regional através do turismo.
Para uma análise mais profunda e todos os detalhes deste assunto complexo, porém urgente, ouça o episódio completo do podcast “Nos Corredores do Varejo” com Fábio Caldas e Felipe Tavares. Disponível no Youtube ou no Spotify.