Conversamos com Denise de Pasqual, fundadora da Tendências Consultoria, sobre a crise no varejo.
Que 2021 aprofundou a crise no varejo, nós sabemos. Mas há motivos para sermos otimistas em relação a 2022? Para entender melhor as origens da nossa situação atual e tentar traçar tendências para o próximo ano, conversamos com Denise de Pasqual. Economista formada pela USP, pós-graduada pela Fipe-USP e com especialização em Administração pela FGV. Ela é uma das sócias fundadoras da Tendências Consultoria.
A crise que enfrentamos é culpa apenas da pandemia ou outros fatores contribuíram para a atual situação?
Sem dúvida é resultado da pandemia. Se não tivesse acontecido o que aconteceu em março de 2020 nós teríamos uma situação distinta. Mas tem especificidades locais que amplificaram a crise. No mundo, a pandemia fechou estabelecimentos e interrompeu as cadeias globais de produção, o que gerou uma desestruturação muito grande e fez os produtos ficarem mais caros ou sumirem das prateleiras. Teve uma série de problemas que significaram aumento de preços e custos, sobretudo de componentes industriais. A partir da ampliação da vacinação nos outros países, houve um movimento de recuperação econômica, que aumentou demanda impulsionando, de certa forma, o crescimento dos preços no mundo.
E o que no Brasil é peculiar?
A gente teve um momento de instabilidade política muito grande, o que significou taxas de câmbio muito depreciadas, mais do que em outras moedas. O dólar se valorizou em relação a outras moedas mundiais, mas o Real se desvalorizou muito mais, então houve um aumento de preços ainda maior aqui. Porque se os preços internacionais de uma série de commodities subiram, se houve essa desestruturação das cadeias globais provocando aumento de preços internacionais, quando eu multiplico isso por uma taxa de câmbio muito mais depreciada, eu tenho um fenômeno amplificado aqui. Por isso nossa inflação foi ainda maior. Além disso, o próprio enfrentamento da pandemia foi desestruturado, com pouca coordenação. Demorarmos para iniciar o processo de vacinação, tudo isso afetou a confiança dos consumidores. Então claramente é uma crise determinada por um choque mundial, mas aqui tivemos outros fatores que amplificaram essas consequências.
Como deve ficar a renda das famílias no próximo ano?
A renda média das famílias cai quase 6% neste ano e 0,5% no próximo ano. Apesar do aumento da ocupação com a criação das novas vagas, a precarização do trabalho provoca esse resultado.
Temos chances de chegar a 2022 com melhores condições de emprego e renda?
A gente tem uma recuperação do mercado de trabalho, que está em curso e continua no ano que vem, mas é lenta. Há vagas sendo geradas, sobretudo no setor de serviços. Mas a taxa de desemprego deve cair pouco, porque mesmo havendo mais vagas, tem mais gente procurando emprego. Pessoas que tinham desistido de buscar trabalho, ou que não procuravam porque não tinham com quem deixar os filhos, estão voltando ao mercado. A gente projeta um crescimento de 4,5% na ocupação em 2022. Mas a taxa de desemprego, que na média de 2021 deve ficar em 13,5%, deverá cair só para 13% no ano que vem exatamente porque deve ter mais gente entrando no mercado de trabalho. Quem está sendo incorporado ao mercado agora são cargos com salários mais baixos. Lembrando que no início, as demissões se concentraram principalmente entre a mão de obra menos especializada. A mão de obra mais especializada ficou, o que fez com que o salário médio dos que ficaram fosse mais alto em comparação com a situação anterior.
Como foi o desempenho do varejo nestes últimos anos?
Agora estamos num momento de desaceleração, mas o auxílio emergencial foi extremamente relevante para segurar a renda das famílias no ano passado. Lojas físicas fecharam, mas o comércio eletrônico cresceu muito, então não foi um ano ruim para todo o varejo. O setor de alimentos cresceu, assim como o de eletrodomésticos, eletroeletrônicos e materiais de construção. Vestuário foi mais complicado e outros setores tiveram um desempenho pior em função da pandemia. Ou seja, o desempenho do varejo foi muito heterogêneo entre os setores. E teve uma política de segurar a renda das famílias para fazer frente à paralisação decorrente da pandemia que fez com que não houvesse queda espetacular no consumo.
Combater a inflação com aumento de juros, para segurar a demanda, é a melhor política no cenário de crise que vivemos?
Num sistema de metas de inflação como o que temos vigente, a forma de combater a inflação é sem dúvida nenhuma com a política monetária. O BC precisa trazer a inflação para a meta no ano que vem e a forma de combater a inflação é elevar as taxas de juros, movimento que já está em curso. Projetamos aqui na Tendências que esse ciclo termine com taxas de juros em torno de 11,5%, mas não descartamos a possibilidade de ficar até um pouco acima disso.
E qual é o impacto desse aumento dos juros?
Uma atividade econômica mais fraca no próximo ano. Juros mais altos significam crédito mais caro e um cenário para investimento um pouco pior do que a gente teria com juros mais baixos. Então a gente deve ter a atividade econômica crescendo menos no ano que vem. Nossa projeção para crescimento do PIB é de 0,5% e de 1% para o varejo. Um crescimento moderado, bem aquém do que a gente gostaria.
Como enfrentar a inflação sem prejudicar o consumo?
Não dá. Trazer a inflação para baixo envolve uma política monetária contracionista, que reduz a demanda. Não é à toa que as expectativas de crescimento vêm sendo reduzidas semana após semana pelos analistas. Certamente teremos um crescimento bem pequeno no ano que vem. Nossa projeção é de 0,5%, mas não descartamos um número ainda mais baixo.
Então 2022 vai ser um ano difícil, de crise, para o varejo.
Difícil, mas veja que nossa projeção é de crescimento, não de queda. Vai crescer menos do que poderia crescer se tivéssemos em outro ambiente. Com desafios de novos formatos de loja e logística para atender alguém que já se acostumou com o online mas também quer a loja física. Essa digitalização do comércio e dos serviços é uma tendência que vai ficar. Talvez não na mesma configuração, mas há uma série de conveniências que aprendemos e que vão continuar com os consumidores.
Quais dicas podemos dar ao varejo?
Tem que focar em capturar a atenção do consumidor, dado que o bolo vai crescer menos mesmo. Quando o bolo cresce, todos crescem. Agora, o desafio é saber como aumentar a sua fatia do bolo, tirando o pedaço da fatia do outro.