Até quando vamos conviver com a crise econômica?

Conversamos com Denise de Pasqual, fundadora da Tendências Consultoria, para entender os impactos da crise econômica no próximo ano e as perspectivas para o investidor

Por quanto tempo mais devemos conviver com os impactos da crise econômica trazida pela Covid-19? O investidor ainda tem razões para apostar no Brasil? Para entender melhor essas e outras questões conversamos com Denise de Pasqual, economista formada pela USP, pós-graduada pela Fipe-USP e com especialização em Administração pela FGV. Ela é uma das sócias fundadoras da Tendências Consultoria.  

Quais reflexos da crise econômica continuarão nos próximos anos? 

Ainda vamos viver um rescaldo da pandemia e não podemos deixar de salientar a preocupação com a 4ª onda na Europa, que não sabemos como chegará aqui. E tem também toda uma discussão comportamental em função do que vivemos nesses últimos dois anos, que diz respeito a como as pessoas vão fazer compras, como vão se mover na cidade, como os domicílios vão ser. Tem muita discussão de como vai ser o comportamento pós-pandemia. Tem mudanças que vão acontecer por muito tempo ainda.  

Ainda estamos num momento de transição? 

Ainda não sabemos qual será a configuração final. Talvez haja uma mudança na cesta de consumo a longo prazo. Tem a questão do vestuário ou dos alimentos. Ficar 3 dias em casa e trabalhar 2 significa cozinhar ou usar o delivery, enquanto antes íamos a restaurante. Do ponto de vista de consumo, houve em 2020 uma poupança das famílias por conta dessa mudança no padrão de gastos, que pode ser usada para consumir com produtos diferentes num segundo momento. Mas temos uma situação das condições de renda das famílias em geral que é complicada e pior do que tínhamos no pré-pandemia, sem dúvida. 

Como a eleição do próximo ano influencia no cenário econômico? 

A instabilidade política no mínimo tende a continuar. A tendência é termos uma eleição polarizada novamente e isso afeta a confiança, tanto em relação ao consumo quanto ao investimento. Essa variável parece meio etérea, mas tem relação com condições econômicas e como você enxerga o futuro. Se a situação é estável, vou continuar empregado, posso tomar um crédito de 60 meses, por exemplo. Se você está numa situação instável, deixa esse tipo de decisão em compasso de espera.  

Nos últimos tempos, o assunto teto de gastos ganhou grande espaço na discussão do futuro da economia brasileira. Qual a importância dessa política no dia a dia da população e como as mudanças no teto, propostas pelo governo, podem impactar o varejo? 

O teto de gastos é uma regra que limita os gastos do governo (só pode gastar no ano seguinte as despesas do ano anterior corrigidas pela inflação e pelo crescimento do PIB). A ideia é fazer com que o governo faça uma readequação das despesas para acomodar novos gastos. Foi uma medida extremamente relevante para obrigar a política pública a olhar para gastos, que hoje são rígidos, formados majoritariamente por despesas com a previdência, despesas com pessoal e transferências constitucionais para saúde e educação. A aprovação da reforma da previdência foi uma das consequências da emenda do teto. O teto nos obriga a olhar para as despesas e questionar: estamos gastando bem? Depois da reforma da previdência, o segundo olhar deveria estar voltado para a reforma administrativa. Mas veio a pandemia, o governo teve que socorrer as famílias e as empresas de forma extraordinária. Não estamos mais vivendo este momento. Mas estamos num momento pré-eleitoral, onde há uma pressão para aumento de gastos acima do teto. E por que essa discussão é importante? Porque a falta de responsabilidade fiscal leva a um forte aumento do endividamento público e um aumento da percepção do risco do país . Ao invés de olhar como podemos ser mais eficientes nos gastos, estamos tentando gastar mais. Como consequência temos mais inflação, mais alta de juros, menos crédito e menos consumo no varejo.  

Pensando no público investidor. De onde deve vir a próxima onda de investimento em shopping no Brasil? 

Há uma demanda reprimida por entretenimento e esses centros têm o que oferecer. Vemos uma recuperação no fluxo de pessoas nos shoppings. Em relação ao investidor, a instabilidade prejudica o quadro, traz um cenário mais contido e desafiador. Mas se olhamos com uma perspectiva de longo prazo, o Brasil é o maior país da América Latina em número de consumidores e o investidor que está olhando 10, 15 anos à frente pode ter interesse em vir para cá. O crescimento é heterogêneo regionalmente e há oportunidades em diversas cidades brasileiras. No médio prazo, continuamos sendo atrativos pelo tamanho e número de consumidores, ainda que o crescimento seja moderado.  

Como ter visão de futuro dentro do cenário atual de crise econômica? 

É preciso sair da conjuntura e olhar mais o longo prazo. O Brasil é um país muito heterogêneo. Tem regiões que crescem muito, outras que crescem menos. O segmento do agronegócio, por exemplo, vem crescendo significativamente nos últimos anos, diferentemente de alguns setores mais tradicionais da indústria, impulsionando as regiões de fronteira agrícola. Então a dica é tentar olhar ao máximo as micro diferenças entre as regiões, entre as cestas de consumo. Fazendo um planejamento a longo prazo ainda há oportunidades a serem exploradas.  

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