Executiva fala sobre a maior alta do IPCA dos últimos anos, expectativas para o varejo e dicas de como ajudar o consumidor neste momento
Estamos enfrentando um cenário de crise econômica muito forte nos últimos tempos, que impacta diretamente a vida dos brasileiros. Para entender melhor a situação atual e o que podemos esperar para o futuro, convidamos a economista Denise de Pasqual para participar do nosso podcast, Nos Corredores do Varejo. Economista formada pela USP, pós-graduada pela Fipe-USP e com especialização em Administração pela FGV, ela é uma das sócias fundadoras da Tendências Consultoria.
Confira alguns trechos da conversa:
Denise, em linhas gerais, como está a situação econômica no Brasil hoje?
Acho importante fazer uma breve retrospectiva quando se fala em varejo. Tivemos um boom enorme de consumo, que começou em 2013/2014. Muito por conta de uma série de medidas artificiais e de curto impacto. A economia brasileira estava em crise, passou por uma recessão de 2016 a 2018, e quando ia começar a sair da recessão veio a pandemia. Então, a gente acabou não saindo da crise. Hoje a gente tem uma mistura do impacto de uma crise internacional dada pela pandemia e mais recentemente pelo conflito Rússia x Ucrânia, que afeta o Brasil e que tem feito com que a gente tenha uma atividade econômica com muita dificuldade de reagir.
Somos impactados por uma inflação mundial, o Banco Central para fazer frente a essa situação, tem apertado a política monetária e isso se reflete na atividade econômica. Então vemos uma atividade econômica crescendo pouco esse ano. A projeção da Tendências do começo desse ano é o PIB crescer 0,5% e, ano que vem, 1,3%.
O que mais tem afetado a situação econômica nacional em 2022: falta de clareza com o futuro político ou a conjuntura internacional?
É bem difícil medir o que pega mais. É uma somatória das duas coisas. Do lado internacional, a pandemia provocou no mundo uma paralisação das atividades, o que complicou demais as cadeias de suprimento global e aí veio aquele despejar de recursos e liquidez para fazer frente à necessidade das famílias e empresas terem algum rendimento na pandemia. O Brasil fez seu programa para ajudar empresas e famílias e como resultado vem uma recuperação forte da atividade econômica. A gente tem um pedaço dessa crise/inflação que é importada do cenário mundial. Mas se a gente for olhar, por exemplo, a taxa de câmbio no Brasil, ela ficou bastante descolada de várias moedas, com a moeda do Brasil desvalorizando frente ao dólar. Toda essa incerteza política certamente piorou o nosso quadro. Consumidores que vão fazer créditos para 5 ou 10 anos seguram essas decisões e os investimentos também. O ano eleitoral é mais um ano de incertezas, mas acho que menos pelo resultado da eleição em si e mais pelas tensões que são colocadas no ambiente eleitoral. Certamente nossa crise é mais profunda por conta das incertezas do quadro político.
Falando sobre inflação, pode explicar para os nossos ouvintes, o que é e como é calculado o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)?
Acho que essa sempre é uma pergunta boa. Cada pessoa tem uma cesta de consumo diferente. O que um instituto faz quando ele vai pesquisar? Ele monta uma cesta média. Primeiro faz uma pesquisa para ver como é a cesta de consumo das famílias. É verificado quanto é gasto todo mês com feijão, arroz, Netflix, ou seja, toda a cesta de consumo de bens e serviços, e qual a sua variação. Essa média de preços é medida pelo IPCA. Mesmo sendo uma cesta média, é uma boa variável para medir como os preços do varejo estão se movimentando a cada mês. Este ano, na Tendências, estamos projetando que o IPCA fique acima de 7%. É um índice elevado.
O IPCA é utilizado pelo Banco Central como balizador. Tem vários outros índices de inflação: IGPM, INPC, mas vamos dizer que o IPCA é o índice principal olhado pelo Banco Central quando se pensa em subir juros.
Podemos dizer que o dinheiro do consumidor está valendo menos a cada mês, diminuindo seu poder de compra. Quais setores do varejo estão sentindo mais na sua opinião?
Eu acho que todos os setores de varejo sentem. Mas o que acontece é uma perda de poder de compra. Eu ganho os mesmos 100,00 de antes, mas acabo gastando uma parte bem maior desses 100,00 com alguns produtos. A gente vê a inflação começando no setor de serviços também, mas certamente há uma inflação nos últimos meses com foco maior em alimentos. E aí eu imagino que todos os outros segmentos de varejo acabaram sendo afetados. Todo mundo sofreu. Existem itens que eu não posso deixar de consumir: energia, comida, moradia, que são incomprimíveis, e com isso acaba sobrando pouco para os bens não essenciais.
Voltaremos a ver preços de combustíveis, alimentos, remédios etc. nos patamares antigos ou o melhor cenário será apenas a parada no crescimento de preços?
Quando olhamos a projeção de inflação para os próximos anos, nossa visão é de que a política monetária vai ser eficiente e a gente vai trazendo a inflação para ficar nos 3%, 4% ao ano, mas isso significa preço subindo, 3%, 4% ao ano. Então é difícil imaginar um quadro de deflação quando olhamos os próximos anos. Mas existe mudança de preços relativos, algumas coisas ficam mais baratas, outras mais caras, na média da economia sobe um pouquinho. Mas quando a gente olha para o horizonte de inflação como um todo, o mais provável é que teremos preços subindo menos, mas não necessariamente voltando a patamares antigos. Mas ao longo do tempo, você vai recompondo o poder de compra na medida em que a economia vai crescendo.
Quais estratégias o varejo pode adotar para lidar com a alta de inflação?
Acho que a vida está difícil para todos os setores no sentido de como lidar com inflação alta. Acho que tem um caminho de busca de eficiência sempre, ele tem seus limites, mas é um caminho. O que a gente vê em termos de inovação e tecnologia pode ajudar. O outro, que é mais paliativo, é ampliar prazos de pagamento e usar o crédito, lembrando que estamos em momento de crédito mais caro. Mas já vimos varejistas fazendo parcerias com bancos e criando produtos nessa linha para aumentar prazo e tentar fazer caber no bolso do consumidor uma parcela que permita com que ele compre. Mas eu digo paliativo por que a gente tem uma taxa de juros mais alta e a renda do consumidor não está crescendo. Mas são dois caminhos possíveis.
Por fim, como os consumidores brasileiros podem lidar com as dificuldades econômicas?
Ele é o ponto mais frágil. Não tem grandes coisas para se fazer a não ser pesquisar e mudar a cesta de consumo. No fundo é isso. Infelizmente ele é o elo mais frágil, pois está na ponta, só recebe aumento de preços e não consegue ter remuneração corrigida pela inflação. O que a gente pode tentar fazer é melhorar a nossa qualificação para tentar trabalhos de remuneração mais alta. Mas no curto prazo só resta mesmo pesquisar e repensar hábitos de consumo.
Quer ouvir a conversa na íntegra? Acesse nosso podcast “Nos Corredores do Varejo”.