Além de lidar com a diversidade legislativa, estacionamento e creche para filhos de lojistas também estão na pauta do setor
Felipe Alves é advogado formado pela PUC e trabalha na indústria de shoppings desde 2001. Em 2017, entrou para o time da Aliansce Sonae, que recentemente anunciou sua fusão com outra grande player deste mercado, a brMalls. Felipe abriu o jogo sobre como é lidar com a diversidade legislativa nos shoppings e os principais de desafios que um centro comercial tão democrático pode trazer.
Pela sua experiência, as fusões entre grandes administradoras são muito complicadas do ponto de vista jurídico?
Passei por uma grande fusão na Aliansce e, mais do que trabalho, prefiro dizer que foi um desafio grande (ele se refere à fusão da Aliansce com a Sonae). São empreendimentos com histórias, estruturas e culturas diferentes, mesmo sendo semelhantes. Conseguir administrar toda a diversidade legislativa e cultural que existe nesse país também é algo complicado.
Como essa diversidade legislativa e cultural impacta os shoppings?
Estamos expostos à legislação dos 3 entes federativos, sendo que as legislações que mais se aplicam são a municipal e a estadual. Então quando consideramos que toda a parte de licenciamento urbanístico é feito pelo município, a criatividade legislativa pode ser grande.
É um trabalho muito complexo entender essa legislação e se adequar. Um trabalho de formiguinha. É preciso fazer um mapeamento pontual de cada município e ainda tem a legislação federal que nos regra de forma mais geral. Mas o dia a dia, as questões urbanísticas, de segurança, licenciamento são todos feitos na ponta. De fato, é muito complexo e um grande dificultador para o empreendedor: gera custo, demora, trabalho e retrabalho. A Abrasce nos ajuda muito nesse mapeamento. Mas esse é o maior gargalo para uma área jurídica hoje no setor de shopping.
Esse gargalo deve ter sido ainda mais intenso durante a pandemia, não?
Esse foi o momento mais surreal. Sempre tivemos uma crença de que tudo poderia fechar, menos o shopping. Quando a gente entendeu que teríamos que fechar o shopping foi um abalo. Foram tempos muito difíceis, as leis que regravam o fechamento ou a abertura eram a municipal conjugada com estadual, e muitas vezes eram conflitantes. Além disso, essas leis mudavam -literalmente – todos os dias. Então tínhamos que monitorar o Brasil inteiro para saber o que o município estava determinando. Lembrando que o fechamento não foi uniforme. Alguns lugares fecharam muito rápido, outros demoraram mais. Esse foi um momento terrível de estresse.
A questão da relação das obrigações com os lojistas foi um desdobramento disso, porque, ao mesmo tempo que existia o fechamento do shopping, ele continuava operando minimamente, com segurança, ar-condicionado etc. Na Aliansce tivemos uma postura de parceria com os lojistas, que é uma característica da empresa, está no nosso DNA. Tivemos um proceder diferenciado, com redução, parcelamentos, diversas medidas que acomodassem o problema. A prova do nosso bom resultado é o número de ações que a gente teve por conta da pandemia, que não são expressivas no nosso universo.
Quais são os principais debates jurídicos que os shoppings vêm travando hoje?
O estacionamento, por exemplo, era uma questão muito recorrente, mas estamos em ano eleitoral e até agora não recebi nada gritante com relação a isso. A questão dos ambulatórios é um outro ponto de atenção para a indústria, que está no holofote e, também, a questão da disponibilização de creches para as funcionárias do shopping e dos lojistas. Esse é um negócio complexo e muito delicado.
Para finalizar, sabemos que shopping mexe com pessoas. Já aconteceu algum caso curioso que você possa compartilhar?
Tudo é possível nos shoppings. Uma coisa curiosa são os pets que aparecem nos shoppings. A gente vê desde cabra até cobra. Uma vez uma pessoa levou uma cobra – enrolada no pescoço – para passear no shopping. A gente até acha divertido, são situações inusitadas, mas é bem difícil para quem lida na ponta. Para a pessoa que está com a cobra, querendo entrar no shopping, não é tão óbvio. Nessas situações, tem que ter um pouco de bom senso. A gente acaba sempre resolvendo de uma maneira boa.
É uma situação complicada para o gerente de operações que tem que preparar a equipe de segurança e lidar com isso.
Ele é nosso cartão de visitas, por isso temos muita preocupação em treinar essas pessoas da ponta, como limpeza, segurança etc. Normalmente elas são o primeiro contato do cliente. Por isso, o treinamento constante.
Prefere ouvir essa conversa? Acesse o nosso podcast “Nos Corredores do Varejo”.