Por que tantas empresas de varejo entraram em recuperação judicial recentemente? 

Já percebeu quantas empresas entraram em recuperação judicial no varejo nos últimos meses? Em 2023 foram 1.405 pedidos , número 70% maior do que em 2022, segundo uma matéria do Jornal Valor Econômico. Outro levantamento, da RGF Consultoria, apontou que tem 4.203 empresas em recuperação judicial no primeiro trimestre deste ano, alta de 3,9% considerando o trimestre anterior. Já entraram com pedido de recuperação no varejo: Americanas, Casa Bahia, Subway, Dia Supermercados, Polishop, Casa do Pão de Queijo, Sidewalk, Tok Stok, entre tantas. 

Convidamos, então, Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, para uma conversa que ajuda a desvendar os complexos fatores que estão levando a esse movimento. O papo completo está em nosso podcast, Nos Corredores do Varejo, disponível no Spotify e no Youtube. Os principais trechos estão a seguir. 

O que significa uma empresa entras em recuperação judicial no varejo? 

Tem dois movimentos acontecendo no mercado de varejo: a recuperação judicial e a extrajudicial. A recuperação judicial, faz um corte dentro da companhia, ela para de pagar as suas dívidas, seus fornecedores, congela todos os pagamentos e a justiça dá um tempo para essa empresa se reorganizar e negociar suas dívidas com seus credores. Uma RJ bem conduzida dá um fôlego para a operação, para ela se reestruturar, renegociar suas dívidas e organizar o fluxo de caixa para que ela, com novas estratégias se reerga. 

Na recuperação extrajudicial a empresa congela dívidas com o banco e renegocia. É como um aviso de que ela precisa de um fôlego antes de entrar com a RJ oficial. Esse movimento é muito importante para as boas operações que passaram alguma dificuldade, por exemplo, uma pandemia, e não tem capacidade de gerar caixa suficiente para fazer os pagamentos. 

De um modo geral, as empresas conseguem sair vivas no final de uma recuperação judicial? 

O índice de mortalidade de RJ é relativamente alto, mas eu diria que para o varejo bem gerido é uma alternativa factível de reestruturação da operação. Porém, a saída da RJ é longa, a companhia vai agonizar por um tempo. Porque uma vez que ela está em RJ, ela não tem crédito, passa a ter que fazer as suas compras à vista e perde um fôlego importante.  

O resultado da economia assentou e começou a apontar pra cima, com crescimento de renda, mais dinheiro circulando no mercado. E, ao mesmo tempo, a gente está vendo um número cada vez maior de re. O que está acontecendo?  

Tem um varejo que depende de crédito e tem um varejo que depende de renda. O varejo que depende de crédito (eletroeletrônico, grandes distribuições de linha branca etc), depende de taxa de juros. E a taxa de juros está alta e ficará mais alta por questões estruturais da política do governo atual. Então tem tem uma dificuldade de vender. No caso do varejo mais popular, a gente vê um crescimento de vendas nos alimentos, por exemplo, no vestuário. Então, a gente enxerga a melhoria de algumas operações. Você pode olhar e pensar: por que a empresa A que vende vestuário, está crescendo, a rentabilidade melhorando, e o outro varejo B, que também vende vestuário, performando tão pior? A gente tem que olhar o acumulado dos últimos quatro anos e então a gente percebe que o varejo que opera melhor não deixou de se preocupar com a eficiência operacional, não deixou de investir na melhoria operacional e fez as lições de casa que tinham que ser feitas.  

O que é exatamente fazer essa lição de casa em termos práticos? 

Sobre o ponto de vista de eficiência operacional, a gente observou logo depois da pandemia, muitas companhias fizeram cortes significativos na operação para que pudesse fazer não só caixa, mas  o que a gente chamou de ‘olhar para dentro’. Essa foi a fase do olhar para dentro. Buscaram onde poderiam ter eficiência de tecnologia, usar robotização, questionaram seus processos, buscaram eficiência logística, centralizaram a operação. Mas muitas organizações não fizeram esse trabalho como deveria ter sido feito nesse período. (…) É importantíssimo colocar que grande parte do varejo tem que olhar para o dólar como um item estratégico, porque trabalha com importação do resto do mundo, da China, do Vietnã. Existe uma gestão financeira muito importante, eu diria fundamental. Essas questões, como um todo, fazem com que o varejo tenha uma complexidade muito grande  

Ouça a entrevista completa no Spotify ou no Youtube

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