A recente entrevista de Deborah Magagna no podcast “Nos Corredores do Varejo” trouxe à tona um tema crucial para o setor: a guerra internacional de tarifas e seus impactos no varejo brasileiro. A seguir estão os principais pontos abordados na entrevista, que você ouve na íntegra em nossos canais no Spotify ou no Youtube.
Como as barreiras comerciais impostas lá nos Estados Unidos impactam o varejo brasileiro
A guerra das tarifas, encarece os produtos em cadeia e isso vai chegar no consumidor final em forma de um preço mais alto. Assim começa a se desenhar um processo inflacionário lá nos Estados Unidos que parece estar muito distante, mas não está.
Isso porque a expectativa de alta de inflação nos Estados Unidos pode chegar no Brasil, por exemplo, dificultando que uma pessoa financie uma moto ou outro bem durável, como linha branca. Se a gente começa a ter uma expectativa de inflação alta, o mercado financeiro já tem quase uma ideia de qual vai ser o remédio (porque ele é sempre o mesmo): juros mais altos. E ainda que essa taxa de juros não vá fazer a inflação cair, o mercado já se antecipa sabendo desse remédio e começa a negociar títulos de dívida do tesouro americano com taxas cada vez mais altas. Nesse momento de incerteza, esses títulos se tornam um porto seguro.
Para tentar atrair investidor para o Brasil, os juros também sobem por aqui. E assimchegamos na pessoa que quer financiar uma moto, ou quer pegar um crédito. Quando os juros ficam mais altos, os bancos cobram mais caro para emprestar dinheiro e o financiamento, que antes podia caber no bolso da pessoa, agora já não cabe mais.
Com juros altos aqui no Brasil, o risco de inadimplência aumenta. E como os bancos começam a ver mais risco, emprestam menos. Se o crédito some e o consumo também começa a diminuir, a economia vai esfriando. E se a empresa começa a vender menos , principalmente naqueles setores que são mais dependentes de crédito, ela começa a produzir menos também.
Quando a gente tem essa perspectiva de demanda em queda, um setor urbano desaquecendo, começa a chegar o problema. Porque pode ser que não seja só o crédito que a pessoa vai ficar sem, ela pode ficar sem o crédito e também sem o emprego. Com massa salarial e rendimento menor, isso vai virando uma bola de neve.
Essa guerra de tarifas traz perspectivas de tempos difíceis para o varejo?
Não só pelo governo Trump. A gente também tem uma pressão por juros aqui no Brasil. E o varejo é um dos setores mais sensíveis em relação a Selic.
De onde vem a inflação dos alimentos?
Ela está vindo de lugares que não têm sensibilidade a juros ou a esse contexto da guerra de tarifas. Ovo, café, são itens que estão caros por fatores de oferta global, fatores climáticos. Aumentar a Selic não vai fazer chover, nem vai fazer o café ficar com maior qualidade. Então, aumentar juros nesse contexto é um remédio amargo, duro, para controlar uma inflação que vai continuar pressionando.
Por que ainda tempos a percepção de que a economia estar pior?
Porque grande parcela da nossa população é muito afetada por inflação de alimentos. Principalmente as rendas menores, médias baixas.
Então, mesmo o PIB sendo mais positivo, havendo crescimento, o desemprego muito baixo, a renda melhorando, esses indicadores macroeconômicos nem sempre chegam na vida das pessoas. Porque se antes a pessoa enchia um carrinho com 100 itens e hoje ela enche um carrinho com 50, com o mesmo valor, a percepção que fica é de que a vida piorou.
O que pode ser feito, no curto prazo, para desacelerar esses preços?
Tem algumas medidas que estão sendo feitas, mas no final das contas podem ter um impacto muito pequeno, principalmente se a gente está falando de setores que são mais oligopolizados. Quanto mais oligopolizado é o setor, mais tendência que tem disso virar lucro do que de fato baixar preço.