“Inovação é para qualquer tempo, mas os momentos de incerteza e crise são os que considero mais oportunos”

Investir em inovação para enfrentar uma crise? Há um ano entramos em isolamento social no Brasil por conta da pandemia de Covid-19, que desencadeou uma crise inesperada no setor de varejo. Passamos por um momento mais crítico, relaxamos algumas medidas de distanciamento e agora retornamos a uma fase de maior restrição à circulação de pessoas e à abertura do varejo. Algumas lojas conseguiram se reinventar para lidar com a crise, outras enfrentam mais dificuldades. Momentos de incerteza como este são bons para mudar de estratégia ou o melhor é seguir uma “receita de bolo” que já deu certo?

Para entender qual é a importância dos processos de inovação em momentos de incerteza como os que estamos vivendo, conversamos com Laureane Cavalcanti. Com sólida experiência no setor de shopping e varejo, ela é uma das fundadoras da DeepDive Brasil, empresa voltada a promover a inovação estratégica nas empresas.

É seguro inovar em meio a uma situação tão atípica como a que estamos vivendo ou processos de inovação são para os momentos de mais estabilidade no mercado?

A inovação é para qualquer tempo, mas os momentos de incerteza e crise são os que considero mais oportunos para a implementação de soluções inovadoras. Todos (mercado, clientes, parceiros, acionistas) estão mais sedentos por ideias que resolvam problemas de forma mais rápida. É mais fácil testar novas soluções num contexto em que as empresas estão na mesma situação e as partes interessadas estão naturalmente mais abertas a experimentar – mesmo que isso represente errar em alguns momentos.

Como inovar em meio a uma crise como a pandemia de Covid-19?

Difícil inovar de verdade, de uma hora para outra, principalmente numa situação tão inesperada e numa crise como a que estamos enfrentando. Acredito muito numa cultura de inovação, que é construída de forma consistente e permanente. Quando as empresas já desenvolveram essa cultura, a geração de soluções inovadoras e disruptivas é quase uma consequência orgânica, sem que seja necessária uma chamada especial ou um empurrão para isso.

Existe um perfil de empresa/profissionais mais propensos a inovação?

Naturalmente, as empresas que já nasceram digitais estão mais “treinadas” para a inovação e para criar soluções ágeis para os desafios do mundo atual. No entanto, qualquer empresa e profissional pode ser treinado numa cultura de inovação. Basta haver interesse e lideranças engajadas, para propiciar um ambiente capaz de inovar.

Como preparar profissionais para mudanças disruptivas no mercado, como essa que estamos vivendo?

Infelizmente, no dia a dia dedica-se muito pouco tempo à inovação. As empresas contratam um Head de Inovação, que tenta agir como uma força contrária ao status quo das organizações e das rotinas do dia a dia das equipes, mas muitas vezes não consegue engajar as pessoas. É fundamental que o líder maior das companhias patrocine esse processo e que ele tenha o suporte dos executivos de todas as áreas. Empresas especialistas em cultura de inovação e cultura organizacional podem apoiá-los nessa trilha, desenhar um novo propósito e revisitar os valores da empresa. A mentalidade de inovação precisa fazer parte do dia a dia da organização, de forma genuína, para então capacitar os times com novas metodologias que facilitam processos de inovação. É um longo processo, mas, quando adotado como essencial pelos acionistas e líderes, costuma ser muito bem-sucedido e gerar resultados relevantes e de longo prazo.

Quais bons exemplos de inovação você acompanhou no varejo em 2020 e quais lições tirar deles?

Dizem que em 2020 as empresas viveram 5 anos em 1, mas isso já foi desmentido em alguns estudos. Viu-se muitas “inovações” aplicadas de forma desordenada e sem efeito, apenas como forma de mostrar que se estava fazendo alguma coisa para combater a crise que se instalou. Há ótimos exemplos, mas, infelizmente, são poucos. O trabalho evoluiu bastante com a necessidade de continuar acontecendo de forma remota, com novas ferramentas de trabalho em equipe à distância. Já a educação sofreu demais e, honestamente, viu-se muito pouca evolução no início do novo ano letivo – tudo permaneceu como estava. O varejo achou um jeito de se virar utilizando o Whatsapp para realizar vendas, mas ainda de forma completamente desintegrada, sem processos e sem uso de sistemas que liderem a jornada de compra.

Quais inovações chegaram aos shoppings em 2020 e vieram para ficar, independente do fim do enfrentamento da pandemia?

Acho que os drive-thrus e lockers para retirada de compras vieram para ficar. Os marketplaces têm muito o que evoluir e podem ser uma novidade que veio para ficar. Entretanto, ainda precisamos de muita integração de sistemas para o processo de compras num Shopping realmente fluir sem ruídos na jornada do cliente.

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