A crise na Americanas e seus impactos para todo o setor de varejo no Brasil estão no centro das entrevistas que fazem parte do primeiro episódio da segunda temporada do podcast Nos Corredores do Varejo, disponível no Spotify e no Youtube.
Para entender o que está acontecendo e, principalmente, quais são as consequências disso para o setor, Fabio Caldas, sócio-diretor da Fronte, conversou com dois professores que acompanham e estudam a fundo o varejo.
Um deles é o professor Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR, o Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo. Ele também é professor titular da FEA-USP e idealizador do MBA em Varejo da FIA.
Nosso segundo convidado é o também professor Roberto Kanter. Economista, especialista em gestão de distribuição de canais, professor da FGV, mentor na Endeavor e consultor de negócios.
Os dois começaram a entrevista respondendo à pergunta: como explicar o que levou à crise que atingiu a Americanas?
Acompanhe, a seguir, a transcrição dos principais momentos dessa conversa.
Qual é a origem da crise na Americanas?
Roberto Kanter: “Lojas Americanas habitualmente era uma má pagadora, no sentido de ter uma política extremamente agressiva de compras, priorizando o fluxo de caixa. Ela exigia, por parte dos fornecedores, que aceitassem negociar pagamentos por algo em torno de 180 dias, o que é muito elevado para a vida da indústria. Mas, obviamente, quando você tem um grande grupo, um grande varejo, você tem um poder de barganha muito grande junto aos fabricantes. Os que são pequenos, acabam aceitando as condições porque a Americanas é preponderante no faturamento e a indústria é grande e tem lastro para poder dar esse prazo.
Tudo iria bem se a Americanas pagasse no prazo, só que ela não pagava. A primeira vez que a indústria vendia para a Americanas ela entrava no banco dela e antecipava o valor a receber, esperando que, quando desse o prazo, a Americanas pagasse. Isso raramente acontecia e a indústria parou de antecipar. O industrial, o importador, o distribuidor, passou a sentar no crédito esperando o vencimento. Quando o vencimento chegava, ele pedia para a Americanas pagar.
Americanas, então, propunha que um banco antecipasse o pagamento, descontados os juros, desde que o fornecedor desse mais 120 dias de prazo para a nota fiscal.”
Carlos Felisoni: “Em primeiro lugar, as coisas não estão totalmente claras, essa é a verdade. Mas o que nós temos é que é uma operação muito comum no varejo você vender, digamos o Fabio comprou o televisor e quem paga esse televisor para o varejista vender é o banco. O problema é que isso deveria ter sido registrado como dívida com bancos e foi registrado, não sei se total ou não, com dívida com fornecedores e não foram computados os juros. Isso já vem acontecendo há muito tempo e veio à tona porque houve a troca do presidente, que nessa troca pediu que ele fosse acompanhado de um diretor financeiro e os dois detectaram essa situação. Inicialmente se disse que era um rombo de 20, os 20 viraram 43 porque eu não conheço nenhum banco que tenha atividade benemérita que não cobre juros.”
Quem deveria ter descoberto e alertado sobre a crise na Americanas?
Roberto Kanter: “Eu ousaria dizer que as empresas de auditoria teriam obrigação de pegar. Veja bem, uma empresa de auditoria não pode colocar um auditor especializado em hospital, em saúde pra cuidar de varejo. Tem que colocar alguém que entende de varejo, já trabalhou com varejo, conhece como o varejo faz, entende como o varejo coloca coisa no armário, coisa na gaveta, como cria esqueletos.”
Claudio Felisoni: “Não é uma situação que nunca aconteceu. Vamos lembrar do caso da Enron, que levou ao fim a consultoria Arthur Andersen, uma das maiores empresas de auditoria. Vamos lembrar também do Eike Batista. Tudo isso pra dizer que os três sempre foram tidos como exemplos de um comportamento empresarial digno do melhor que se pode dizer a respeito da gestão das empresas aqui no Brasil. E você de repente cai do trapézio. Como aconteceram em todas essas outras situações. Mas pior que isso é, no meu modo de ver, também a questão das empresas de auditoria. O artigo que eu escrevi no Linkedin diz que é o porco que ninguém viu. É uma coisa impressionante. Não é erro. São 43 bilhões que, de forma singela, só foram descobertos quando houve a troca do presidente.”
O professor Roberto Kanter, entretanto, fez uma ressalva: “Sob o ponto de vista de justiça, de responsabilidade, a auditoria trabalha com amostra. Imagine que o Fabio aumentou em 120 dias a nota. Eu olhei, vi uma nota fiscal emitida com vencimento para o dia 30 de janeiro de 2023 e depois eu vejo um aditamento para o dia 30 de maio de 2023. Negociei com o fornecedor e o fornecedor aceitou. Eu poderia pegar o telefone e dizer: Oi Fabio, aqui é o Roberto da XY auditoria, você deu realmente 120 dias de prazo? Porque essa é a única maneira que a auditoria teria pra descobrir o negócio. Mas quantos de nós, enquanto clientes e fornecedores, não pedimos pra prorrogar pagamento? É tão comum.”
Quem ganha com essa organização financeira?
Roberto: “Todo mundo ganha. A indústria, sabendo que a Americanas faz isso, não vende por 1 milhão, vende por 1 milhão cento e cinquenta, porque percebe que o negócio da Americanas é jogar para frente. Então, quando o banco pede pra prorrogar por mais 120 dias, a indústria prorroga, mas os juros já estão no preço. Durante anos funcionou.”
O varejo perdeu credibilidade com a crise na Americanas?
Roberto Kanter: “Eu diria que tudo hoje está com cinto de segurança. Os bancos com certeza devem ter diminuído em muito o valor de crédito a pagar, crédito a entregar. Não só para a Americanas, para todo mundo.”
Essa crise de confiança pode virar uma crise de créditos para os varejistas, que usam muito esse mecanismo para se financiar?
Claudio Felisoni: “Sim, ou seja, isso vai afetar o capital de giro das empresas de varejo, sem dúvida. Os bancos estão muito mais atentos agora a esse tipo de operação.”
Essa é uma crise localizada na Americanas, com pouco potencial para contaminação no restante do varejo e impacto mínimo no consumidor final?
Roberto Kanter: “O consumidor final não vai ser impactado. Não vai faltar chocolate, freezer, bala, cueca, xampu. Talvez o ovo de páscoa eu não consiga encontra no mesmo preço e ao invés de 5 ovos vou ter dinheiro pra só 4. Mas possivelmente alguns novos players entrem no mercado. É muito provável que você veja Riachuelo, Renner, Magalu vendendo ovo de páscoa. Shopping vendendo ovo de páscoa. Eu estive em um shopping em São Paulo e tem um quiosque da Kit Kat vendendo ovo da Kit Kat. Acho que tem uma tendência enorme das indústrias vendendo direto para o consumidor. Eu, se fosse Mondelez, Nestlé, já estava negociando quiosque com shopping pra não ficar dependente de Americanas. Já estaria procurando novos parceiros estratégicos, montando loja no mercado livre, na Amazon. Já estaria vendendo ovo na Centauro, fazendo cobranding com a Farm e assim por diante.
A operação da Americanas consegue superar a crise?
Claudio Felisoni: “Eu diria o seguinte, que os três sempre se pautaram por mostrar uma operação muito eficiente e muito rentável. Ela não é isso tudo. Então eu acho pouco provável que ela se recupere e venha a ocupar o mesmo papel que ocupou no passado.”
Uma rede como a Le Biscuit, que tinha uma fome de crescimento, pode começar a se desenvolver em cima dessa queda, por serem empresas mais ou menos do mesmo modelo?
Claudio Felisoni: “O mercado de varejo é muito competitivo e já tem players estabelecidos com condições bastante vantajosas nesse mercado. Outro aspecto é de natureza macroeconômica. Nós estamos vivendo uma situação completamente diferente daquela que o atual governo viveu nas duas primeiras gestões do presidente Lula. [Naquela época]Nós pegamos um cenário muito favorável de crescimento dos preços das commodities, de uma China com motor aquecido. Mas é tudo ao contrário agora.
Esse negócio [da Americanas], que é um negócio de margens baixas e com giro muito alto, precisa do giro muito alto. Sinteticamente há dois tipos de negócios. Um negócio de margem alta e giro baixo, tipo bolsa Louis Vuitton, e negócio de giro alto e margem baixa, tipo lojas Americanas.. Num negócio de giro alto, a eficiência é absolutamente fundamental, principalmente no que diz respeito a custo. Eu tenho a impressão, não conheço a operação em profundidade, vi algumas declarações, de que no caso da Americanas se fazia muito proselitismo da operação, de que era muito eficiente, mas na verdade não era isso.”
O que o varejo aprende, se é que aprende alguma coisa com essa crise?
Claudio Felisoni: “A casa pode cair de uma hora para a outra.Essa experiência não é única. Em algum momento o mercado detecta isso e você corre o risco da própria sobrevivência, como aconteceu com a Enron, com o Eike Batista, que figurou na lista das maiores fortunas do mundo. E se você hoje perguntar para um aluno de graduação quem é o Eike Batista provavelmente ele não sabe. Se propagandeia demais certas coisas que não são como estão sendo vendidas.”
Do ponto de vista de gestão, governança, muda alguma coisa?
Roberto Kanter: “Você viu quantos comitês de transparência a Americanas tem? 8. Existe uma dicotomia entre o mundo real e o mundo ideal. Existe todo o lado ideal, com um monte de conselheiros, mas no mundo real alguém está escondendo o negócio no balanço. Essa é a sensação que eu tenho. Isso é com todo mundo? Não, não vou generalizar. Tem uma tendência a melhorar? Tem. Mas ainda tem muita empresa onde a diretoria faz coisas para o investidor ver mas o dia-a-dia da operação é totalmente diferente.”
A crise na Americanas muda algo no modelo de negócio do varejo?
Claudio Felisoni: “O modelo de negócio hoje está crescentemente calcado na combinação das operações físicas com as operações virtuais e isso vai continuar. Porque essa mudança que nós estamos assistindo decorre de algo subjacente a tudo isso que é a queda nos custos de informação e isso está modificando todo o relacionamento das pessoas nas suas diferentes atividades. Mas acredito que isso chama a atenção e obriga as empresas de varejo a uma mudança no que diz respeito à questão da governança. Esse me parece que é o ponto forte, o efeito positivo decorrente dessa situação dramática enfrentada pelas Americanas.”
Há algum risco de lojas da Americanas começarem a fechar e isso impactar no mercado de shopping, que já é ressentido de vacância alta?
Claudio Felisoni: “Eu diria que é uma possibilidade sim, porque eles vão ter restrições para os próprios fornecedores, talvez não tenham condições de ofertar os mesmos volumes, vai prejudicar a escala da operação. Onde é possível diminuir? Nos espaços que custam mais caro.”
No interior de SP um shopping já pediu a loja porque a Americanas tem histórico de pagamento complicado. É possível que outros shoppings aproveitem essa crise para trocar de lojista?
Roberto Kanter: “No mundo real não vai acontecer porque não tem ninguém pra ocupar o lugar. A última coisa que o shopping vai querer é um paredão escrito ‘Aguarde nossas novidades’. Se isso acontecesse num momento de expansão, como em 2012, o shopping seria o primeiro a tirar a Americanas. Mas hoje, as chances tendem a zero. É pontual.”
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