Para Milenna Crespo, da Designcorp, arquitetura é crucial para a conexão entre o shopping e seus clientes
O shopping para o brasileiro vai além das compras, ele proporciona experiências e histórias. E isso só acontece quando o espaço consegue abraçar e trazer um sentimento agradável para quem está passando por ali. Para falar sobre design aplicado a varejo, conversamos com a arquiteta Milenna Crespo. Ela atua hoje como VP na Designcorp, uma empresa de design canadense que está há 32 anos no Brasil. Confira alguns trechos do bate-papo:
Quais são os principais desafios ao planejar a arquitetura de um novo shopping?
Entender as necessidades do seu cliente e o que ele quer. O mercado brasileiro e o mercado mundial do varejo estão passando por uma mudança muito grande, especialmente em relação ao comportamento do consumidor. É preciso prever o que o consumidor gostaria de ter e um pouco mais. A gente tem que estar sempre um passo à frente. Na questão de compra e entretenimento, o cliente quer ser surpreendido e encantado, não podemos fazer o básico. Hoje falamos que o shopping passou a ser um “experience center”. A compra é uma consequência.
E porque o shopping ganhou esse papel de ser um lugar de entretenimento e lazer e não só de compras?
Antes você ia aos lugares para consumir, hoje você tem na porta da sua casa qualquer coisa que você quiser, mas nada substitui ir a um lugar gostoso, encontrar pessoas, tomar um café. Isso não foi e não vai ser substituído pelo digital. Então a gente tem que fazer com que essas experiências prazerosas sejam o fator mais importante nessa relação. Ir numa loja de sapato, por exemplo, e experimentar diversos modelos, não substitui uma compra online. Por mais que a gente tenha avançado, essas experiências nunca vão deixar de existir. Hoje vemos em várias pesquisas que grandes marcas, que operam muito bem online, apostam em lojas físicas muito mais experimentais, porque mesmo comprando online os clientes sentem falta de ter contato com o produto. Acho que estamos sedentos de experiências, contato e encontros.
Em outros países é igual?
Eu acho que no geral o sul-americano tem essa relação muito próxima com o shopping. O Brasil está muito avançado em relação a outros países da América do Sul. No geral, tem um fator de segurança que é muito presente na indústria de shoppings no Brasil. As pessoas se sentem seguras dentro do shopping. É um ambiente protegido e controlado em todos os sentidos. Infelizmente, temos poucos espaços públicos de qualidade. A relação do europeu com o shopping é completamente diferente. Ele vê quase como um impostor, pois o centro das cidades é muito rico de experiências e vivências, então lá o shopping não tem esse apelo.
Como a arquitetura pode contribuir para conectar shoppings com seus clientes?
A arquitetura é o espaço. E as pessoas têm uma conexão subliminar com o espaço. Elas não sabem dizer por que gostam ou por que aquele espaço é agradável ou não. Nosso trabalho, como arquitetos, é entender o tipo de comportamento das pessoas daquela comunidade para então criar um espaço que vai agradar a todos e fazer com que se sintam bem ali. Tem uma série de questões arquitetônicas que devem ser consideradas.
Pode dar algum exemplo?
No shopping existem muitas áreas diferentes e muitos usos diferentes, então precisamos orquestrar esse caminho para que tudo funcione bem. E como cada área vai ter o seu papel e vai imprimir uma sensação ao consumidor. A gente entende o comportamento do consumidor e coreografa a sua experiência no espaço: por onde ele caminha, para qual lado ele vai virar etc. Existem projetos bonitos, mas com problemas de circulação tremendos. A arquitetura não é só estética, só visual, tem toda uma questão de fluxo do espaço que é importantíssima.
Para finalizar, quais são as tendências de arquitetura que o shopping precisa ficar de olho?
Espaços abertos são uma grande tendência que já vinha antes da pandemia, mas agora estão cada vez mais fortes. Mesmo dentro de shoppings mais fechados, é preciso criar essa interação com a área externa. Aquele conceito antigo do shopping ser uma caixa, para as pessoas se perderem no tempo lá dentro, é algo que hoje não funciona mais. Invista em espaços abertos, luz natural, vegetação, espaços agradáveis e diferentes ambientes.
Para ouvir essa conversa na íntegra, acesse nosso podcast “Nos Corredores do Varejo” no Spotify.