Fernanda Pires, superintendente na brMalls, conta o que viu de mais interessante no SXSW deste ano.
Fernanda Pires atua no mercado de varejo há 15 anos e hoje é superintendente na brMalls. Com background em marketing e comunicação, hoje seu foco é em gestão de pessoas e negócios. Ávida por conhecimento, Fernanda recentemente participou do SXSW (South by Southwest), principal evento de inovação no mundo que aconteceu em Austin, Texas, e compartilhou conosco suas percepções sobre o encontro:
Por que você decidiu ir ao SXSW neste ano? Você já tinha ido nos anos anteriores?
Presencialmente foi a primeira vez. Eu já tinha participado virtualmente do SXSW no ano passado. Eu tinha feito a inscrição para participar em 2020, mas com a pandemia foi cancelado. O evento de 2021 foi incrível e fiquei muito interessada e animada em participar desta edição presencial. Fui muito surpreendida. Sempre me interessei por inovação, e não necessariamente tecnologia. Sou da área de comunicação, sou criativa, mas principalmente muito motivada por transformações.
Você publicou um artigo no LinkedIn sobre o evento e nele você fala: “Mude o viés, não mude as mulheres”. O que isso quer dizer?
Sou defensora do papel e do lugar da mulher. Dessa construção que precisamos fazer do nosso papel. O SXSW tem inúmeras abordagens: tecnologia, pesquisa, publicidade, novos negócios, mas um tema que me chamou atenção foi ESG. Isso me interessa muito especialmente pela minha luta de equidade de gênero. Uma das palestras que participei sobre diversidade e inclusão falava muito sobre vieses e como a gente tende a dar oportunidade para quem se parece com a gente. Quando falamos sobre o tema “mulheres”, vemos um mercado tentando mudar as mulheres, querendo que elas endureçam, tenham atitudes diferentes para ocupar os espaços. Elas podem ser o que elas quiserem, continuar sendo sensíveis, doces. E não precisam se masculinizar. Precisamos mudar os vieses e não as mulheres. Elas têm que ser quem elas são, sem parecer outra pessoa ou ocupar outro papel. E ganhar o espaço que elas merecem.
Muitas mulheres em cargos de liderança sentem que precisam reproduzir características masculinas para conseguirem se igualar no ambiente corporativo. Precisamos falar mais com as mulheres no topo para tentar mudar esse viés?
As mulheres, por toda a questão estrutural que passam, já são enviesadas. A gente vive em uma sociedade machista e em algum momento elas precisaram ser mais duras. Mas elas podem ser práticas, competentes e ainda assim usar sua sensibilidade em prol do negócio. Essa discussão está mais aflorada ultimamente, mas temos um caminho grande a percorrer. Falar com homens e mulheres sobre isso, sobre pessoas ocuparem os espaços que elas quiserem, sem parecer com o outro. Esse papo precisa ser feito com mulheres em posição de liderança. É uma luta diária, a gente precisa fazer valer a representatividade, mas entender que o que a gente reproduz é importante para quem está se inspirando.
Por que a representatividade nos negócios é importante?
Quando a gente fala de empresa, negócios, indústria e mercado de trabalho basicamente a gente tende a ter semelhantes, é natural. Mas como empresa você precisa ser um espelho da sociedade. Se não você não consegue propor produtos e soluções.
Havia muitos brasileiros presentes no SXSW? Você sentiu que nosso mercado está carente por acesso a novidades?
Tinha muito brasileiro, acho que depois da delegação americana a do Brasil era a que tinha mais gente e o mais legal é que tinha muita mulher. Eu mesma estava num grupo de discussão de mulheres, que produzem um conteúdo de business diferente. Isso para mim tem um grande valor, mesmo com a nossa moeda desvalorizada, ver o brasileiro buscando capacitação foi muito surpreendente. Acho que temos muito conteúdo e muita gente inteligente, temos muito a contribuir, mas falta oportunidade no nosso país.
As inovações vistas fora do Brasil estão chegando aqui? Quais são as barreiras para os shoppings acelerarem o processo de inovação?
Acho que o varejo em si, é uma indústria muito analógica e vem passando por uma transformação digital por questão de sobrevivência. O e-commerce está crescendo, vemos um comportamento do consumidor mais online e a gente surfou muito essa onda, mas ainda somos uma indústria em crescimento. A gente começou a investir e correr atrás para tentar perder ou transformar essa característica de indústria analógica para ir para uma indústria mais digital e estamos trabalhando nisso de uma forma geral. Agora, quando vamos para um evento como esse, que fala muito de futuro, tecnologia, inovação e comportamento, pensamos: “O mundo está acontecendo e a gente está parado!”. Mercado de cannabis, indústria de psicodélicos, novas formas de alimentação, isso, no futuro, vai estar dentro do shopping. Hoje não existe, mas lá fora já existe.
Pode nos explicar a diferença entre “speed reader” e “speed understander” e como fazer uma curadoria de conteúdos que consumimos de forma mais inteligente?
Uma coisa é consumir muita informação muito rápido e outra é entender o que você está consumindo. Precisamos ter cuidado para não perder tempo consumindo porcaria. Faça uma curadoria, aumente seu repertório, mas com qualidade. Isso tem total relação com FOMO (Fear of Missing Out). Ficamos desesperados, com medo de perder tudo. Não queira ler tudo porque com certeza você vai ficar na superficialidade. Quando você conseguir filtrar o que interessa com certeza o resultado vai ser muito melhor na sua jornada de conhecimento.
Você consegue se desconectar?
Não, mas pude exercitar um pouco durante esse evento para abrir espaço para essa quantidade grande de informação entrar. Tive FOMO nos primeiros dias, mas senti que era essencial me desconectar e tentar me divertir. Separei as palestras mais interessantes, mas entendi que tudo bem se não tivesse conseguido ir. Aproveitei para viver os momentos, curtir e aprender.
A neurociência explica que aprendemos nos divertindo. Mas isso muda quando viramos adultos. Tudo fica mais sério.
Isso tem a ver com repertório. Você pode ser um excelente profissional, excelente naquele mercado, mas se você não tem um repertório diferente não adianta. Tudo depende de como você vai absorver e fazer uso daquilo. Uma pessoa cheia de repertório é muito mais interessante, mais criativa.
Durante o SXSW falou-se sobre pesquisa de mercado?
Muito se falou sobre diagnóstico, futuro, inovação e comportamento. E, para isso, você precisa conhecer o seu consumidor. Para dar ao consumidor o que ele quer, quando ele quer, você precisa conhecê-lo e isso é feito com pesquisa. A fonte pode ser variada, mas o consumidor, ou o seu colaborador, não tolera mais receber um bombardeio de informações, em horários inapropriados, eles esperam um comportamento mais personalizado.
Por fim, pode compartilhar conosco 3 lições aprendidas no SXSW?
A primeira é se desconectar para se conectar e aumentar o seu repertório, estar aberto para isso é superimportante. A segunda é super básica: inovação não é sobre tecnologia, tecnologia é a forma de acelerar toda essa transformação, agora inovar é fazer as coisas de forma diferente. Se você se permite fazer diferente, você é inovador. É muito mais sobre comportamento e menos sobre tecnologia. Por fim, no final do dia, todos os conteúdos e todas as palestras falavam sobre pessoas, propósito, confiança, empatia e amor, que é o que estamos precisando no mundo. Foi um evento de inovação que falava muito de pessoas. A tecnologia vai acelerar, mas é importante inovar com pessoas, parece óbvio, mas não é.
Quer ouvir a conversa na íntegra? Acesse nosso podcast “Nos Corredores do Varejo”.