Smart capital: solução para o crescimento do varejo?

A crise da Americanas deixou bem clara a necessidade de crédito para o crescimento do varejo. Mas como conseguir dinheiro emprestado em um contexto de crise de credibilidade do varejo e juros altos?

André Luiz Silva, COO e um dos fundadores da a55, conta nesta conversa quais critérios usam para garantir crédito seguro a mais empreendedores.

Como funciona a a55?

O varejista hoje quer capital de giro, quer crescer, mas para ter acesso ao crédito no banco ele precisa ter bens imóveis, carros ou um dinheiro como garantia. Mas normalmente, quem busca crédito, não tem esses bens para dispor. Por isso, aqui na a55, nós consideramos outras variáveis: com quem você faz negócio, como estão estruturados esses contratos, como é o seu fluxo de caixa. E a partir disso a gente tenta modelar um produto que sirva pa ra cada empreendedor.

A segurança, do lado de vocês, está no próprio negócio e no potencial de crescimento do varejo?

Isso mesmo. A segurança vem de grupos econômicos, de transações comerciais que todo empreendedor tem.

O foco da a55 é no varejo físico ou no varejo online? O tratamento que vocês dão para o varejo físico é diferente do tratamento dado para o varejo online?

Nós somos uma empresa de tecnologia que estrutura operações de crédito. Então nosso foco definitivamente é no que corre online. E existem algumas diferenças, como por exemplo, quando a gente fala em meios de pagamento, quando a gente fala de varejo físico, nós falamos de transações presenciais autorizadas por PIN. Enquanto no varejo online eu consigo fazer o acompanhamento do estoque e das vendas em tempo real.

É diferente emprestar dinheiro para o varejo físico e para o varejo online?

Quando a gente vai fazer a análise de crédito é muito importante a gente entender a capacidade de pagamento de uma parcela. No varejo físico a gente olha os extratos bancários, porque lá estará o faturamento dessa loja. Quando é um varejista 100% online, a gente vai olhar o extrato da Shopee, do Mercado Livre. A gente tem acesso a mais informações que digam como esse cara funciona online. Por isso a visão do perfil de pagamento é muito facilitada quando o varejista já nasce online.

E isso reduz o custo do crédito para o cliente?

Reduz, com certeza. O custo do crédito está completamente ligado ao fator de risco e também ao quanto desse cliente eu conheço.

Comparando os critérios de vocês com os de um banco tradicional, qual é a diferença?

A gente acredita que os históricos de vendas são verdadeiras ferramentas de análise de crédito. Enquanto o banco vai fechar a porta, ou vai exigir uma operação mais cara, a gente olha o que o varejista tem de performance e por isso entende, com as ferramentas de crédito que a gente tem aqui dentro, qual é a capacidade [de pagamento] que essa empresa tem. Tem muitos dados [disponíveis] em especial no setor online, só que os bancos não olham.

Por que não olham?

O entrave é tecnológico. O cliente pode ser o melhor vendedor da Shopee, mas o gerente do banco não sabe o que fazer com isso porque não está na prova do CPA-20. Tem que ter um uma quebra de paradigma que cientificamente prove que aquele histórico [de vendas] é robusto e que ele deve se replicar no futuro. Esse é o tipo de ferramenta que nos diferencia [na a55]. Porque o banco vai avaliar quanto vale sua casa. R$40 mil? Então ele considera R$25 mil, que é um preço seguro porque ele não pode ter prejuízo. E é R$ 25 mil que você tem de crédito. Não importa se você  vai entrar no mês das mães, se vai ser o melhor mês de vendas. Eles [os bancos] viram as costas e os empreendedores não só não têm fôlego como –  o que mais me dói como empreendedor particularmente –  não têm condição de concorrer, de fazer uma campanha de dia das mães num e-commerce, ou uma Black Friday tão grande quanto um grande varejista. Então como a gente vai fazer o varejo crescer se ele está todo concentrado?

É só uma questão de tecnologia ou também de falta de interesse no tamanho desse cliente?

É com certeza uma questão de market share. Porque dez bancos do Brasil dominam mais de 80% do mercado do crédito privado. Ou seja: todos os clientes e todos os empreendedores são provavelmente clientes desses bancos. Além disso, o nível do endividamento do brasileiro nos últimos anos garante que esse empreendedor use o cheque especial do Bradesco, que está a 400% ao ano, pegue um cartão de crédito na Caixa, que cobra 770% ao ano, 20% ao mês. Então o banco já está ganhando dinheiro com ele. Portanto, um fator importante de ponderância é: quanto as fintechs de crédito conseguem avançar em atender esses clientes que querem capital. Então os varejistas que estão buscando capital podem parar de ir pro cheque especial e começar a buscar uma linha como a nossa, que varia de 3% a 5%.

Qual é o nível de endividamento do brasileiro hoje?

Hoje, 78% das famílias brasileiras estão endividadas de alguma forma. Quem comprou uma casa financiada, por exemplo, é considerado endividado, mesmo que esteja pagando as parcelas em dia. É um número alto. Além disso, 1 a cada 3 famílias têm contas atrasadas. Então elas não estão só devendo dinheiro, mas o que elas devem elas não pagaram. Na ponta do cliente ficou mais difícil também conseguir fazer a compra. Por exemplo: o cliente que precisa de R$ 100 e dividiu [o empréstimo] em doze vezes, vai pagar duzentos e quarenta reais. Com cinco parcelas ele já tinha pago o que ele precisou do capital, mas ele paga mais cinco só de juros.

Por que no Brasil é assim?

A resposta fácil e rápida que a gente tem é o risco da inadimplência. Mas se fosse s, a hora que você vai pra um empréstimo consignado, por exemplo, o juros tinha que ser ridículo. Mas ele ainda é alto. Então em primeiro lugar a gente tem um cenário no Brasil que é uma taxa básica de juros. E essa taxa é considerada o custo do capital para todos. Então a conta não começa da inadimplência. A conta começa na taxa Selic. O dinheiro mais barato na prática de mercado que você pode achar é 15,8% ao ano. Além disso, outro ponto: a gente está trazendo aqui é que 80% do mercado é dominado por cinco a dez bancos. Então isso quer dizer o seguinte: a prática de valores é completamente arbitrada pelo mesmo grupo de empresas. É uma decisão de mercado, não tem nada técnico aí por trás.

O varejista já está se preparando pra um crescimento ou ainda está muito ressabiado?

Economia tem muito a ver com política. Quando a gente coloca do risco máximo político do Brasil perto da eleição do ano passado versus o que está acontecendo agora, o dólar tem uma queda clara. E quando você tem uma moeda mais forte contra a que está mundialmente no páreo você já tem um excelente ganho de condições comerciais de negócio. Então esse é o primeiro ponto de melhora que eu estou enxergando.

Segundo ponto:  a gente está indo para o momento do setor de varejo aonde ele mais fatura, que é na Black Friday no final do ano. Então muitos empreendedores estão até na geladeira mas aguardando seus tiros para serem dados na Black Friday. Eu acho que esse movimento é um movimento prudente e eu entendo que isso é um bom sinal . Outra notícia muito boa foi a elevação do Brasil pela agência de rating.  O Brasil está bom. Ele está como idealmente deveria ser? Definitivamente não. A gente precisa de bastante tecnologia. Mas eu acho que o final do ano de 2023 vai ser muito quente pro varejo. São dois trimestres que eu acho que vão ser muito bons.

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