Inovações no varejo: em que pé estamos?

Quer entender como o setor alimentício está lidando com as inovações tecnológicas e para onde esse mercado deve mirar? Para discutir esses assuntos conversamos com Marcos Escudeiro, mentor, estrategista e palestrante com mais de 30 anos de experiência no mercado de varejo de alimentos. Confira:

As novas tecnologias auxiliam no aumento das vendas e da lucratividade do negócio?

Quando falamos nos sistemas de gestão, claro, isso faz parte da evolução de qualquer negócio no mundo. Devagar os custos de utilização vão baixando e o resultado acaba atingindo a todos. Mas, antes, deve-se fazer o básico, que muitos ainda não aprenderam.

Muitas empresas dizem que conhecem seus clientes, mas é pura “percepção”, sem base científica. Muitas vezes o supermercado oferta produtos sem considerar o interesse real de seus clientes em comprá-lo.

O básico consiste em: sortimento, preço e atendimento. Quantas vezes vamos a uma loja e não encontramos a marca que queremos? Ou verificamos preços altos em relação a outros concorrentes? Ou vamos a uma fila do caixa e notamos vários caixas fechados? 

Qual sua análise sobre as inovações tecnológicas no varejo alimentício brasileiro?

Quando falamos de Brasil, a grande questão a ser considerada é a renda. No mundo todo os modelos de negócio que mais crescem são os de baixo preço. Mas, ao mesmo tempo, as empresas de tecnologia e as consultorias são as que mais chamam a atenção das mídias com as inovações que oferecem.

Já temos empresas oferecendo as melhores tecnologias do mundo, como lojas com self check-out, por exemplo. Mas, se levantarmos dados reais de mercado, veremos que as grandes inovações são oferecidas apenas a alguns nichos. A maior parte da população ainda está longe de poder utilizar tudo isso.

Segundo relatório da Ebit | Nielsen, em 2020 o e-commerce cresceu 41% (R$ 87,4 bilhões). E, de acordo com o IBGE, as despesas de consumo foram de R$ 4,68 trilhões, com participação total de 1,87% do e-commerce no consumo das famílias brasileiras.

Precisamos entender a importância de se trabalhar com dados corretos e pesquisas sérias. E a Fronte me dá essa confiança. Sempre que eu preciso saber o potencial de consumo de um empreendimento ou conhecer os consumidores e seus hábitos, recebo estudos reais, não para me agradar, mas sim para trazer a verdade – que muitos não gostam de ouvir.

Quais inovações tecnológicas você acredita que não são mais opcionais, que já se tornaram obrigatórias em supermercados (self check-out, adega inteligente, tour virtual, etc)?

Pensando em tecnologia na visão dos clientes, não acredito que nenhuma dessas citadas são obrigatórias. Os clientes ainda veem os self check-outs como redução de funcionários e maior lucro para os varejistas.

Qual sua opinião sobre caixas totalmente automatizados?

Pequena parte da população tem condição de utilizar esse tipo recurso. Temos vários perfis de consumidores, mas praticamente 80% da população, economicamente ativa, estava na fila da Caixa Econômica para receber auxílio emergencial.

Você aposta em alguma tendência que ainda não chegou ao Brasil?

O crescimento dos atacarejos é a maior prova de que o que importa é o preço. Em todo o mundo o modelo que mais cresce é o da oferta do preço baixo. Na Europa e nos Estados Unidos redes como Aldi e Lidl (de hard discount) continuam crescendo. Mais perto de nós, na Colômbia, já são mais de 3.000 lojas nesse formato. Então, talvez esse seja o caminho. Mas muito tem que ser aprendido com os de fora, visto que as maiores redes de hard discount do mundo são empresas independentes.

No Brasil já se tentou esse formato. Nos anos 80, o GPA teve por aqui o Minibox, mas o tratou como um supermercado de pobres, com instalações mais simples e sem o apelo do preço, pois carregava os custos centrais e de logística do grupo. Em 2000, a ECON chegou a ter 85 lojas em São Paulo. Dois anos depois, eles desistiram de aportar recursos na América Latina como um todo e resolveram mudar o modelo, subir os preços e endividar a empresa, que foi vendida em 2004 para a CBA (cestas básicas). Depois disso, as lojas não perpetuaram.

Hard discount é um formato diferente de negócio, onde a atratividade é o preço e a simplicidade é tudo. E, para isso, é necessário ter disciplina.  

Qual sua percepção sobre o futuro das lojas físicas frente ao online.

Acho que no varejo alimentar esse futuro está muito longe. O online vai evoluir, proporcionalmente à renda, para parcela da população e para certos grupos de produtos.

Em termos de inovação, como o mercado de bairro pode concorrer com as grandes redes?

Fazer o básico bem feito, atender bem o cliente. Mas não adianta apenas falar, a equipe tem que sentir na pele o que é ser bem tratado para, consequentemente, tratar bem os clientes. Algumas empresas já mudaram seu lema de “cliente em primeiro lugar” para “funcionário em primeiro lugar”.

De forma geral, como proporcionar uma melhor experiência de compra ao consumidor?

Acredito que quem trabalha em supermercado deveria fazer compras nos concorrentes. Sentir na pele e experimentar é sempre o melhor aprendizado. Todo ser humano tem intrínseco em si um orgulho do que faz. Mas deixar de olhar o próprio umbigo – como se diz popularmente – pode ser o melhor aprendizado de todos.

Quais dicas você daria para os gestores de supermercado?

  • O mercado está evoluindo muito rápido. Os meios de comunicação mudaram. E você, empresário, já sabe como usar isso a seu favor?
  • Atualize-se! Busque novos cursos na área.
  • Use pesquisa sempre! Muitas vezes são investidos milhões em novas obras ou campanhas, e não se gasta em pesquisas ou cursos que podem, efetivamente, evitar grandes prejuízos.

Gostou da entrevista sobre os impactos da tecnologia no varejo alimentício? Compartilhe com seus contatos.

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