Apas Show 2023: aprendizados e insights da maior feira alimentar brasileira

Perdeu o Apas Show, maior evento do setor alimentício no Brasil? Ou ainda: foi ao evento mas saiu perdido com tanta informação? Então este episódio do podcast Nos Corredores do Varejo é para você.

Marcos Escudeiro, um dos principais nomes do varejo alimentar no Brasil (e com quem já conversamos por aqui), fala abertamente tudo o que achou sobre o evento.

Confira abaixo os principais trechos desta conversa, que pode ser ouvida na íntegra em nossos canais no Spotify ou no Youtube.

Como foi a Apas Show 2023?

Tinha muita gente. Na quarta-feira, 5h da tarde, estavam dentro da feira 26 mil visitantes. É mais do que muito município brasileiro!

Mas foi muito interessante ver todo mundo motivado. Porque sempre que tem uma crise, todo mundo vai à feira para saber o que está acontecendo. É impressionante! Vem gente do Brasil inteiro, é uma oportunidade também dos encontros, do network.

Existe crise no varejo alimentar?

Tem uma coisa que é bem importante esclarecer e pouca gente fala. Mas o varejo alimentar não é o varejo brasileiro. São coisas muito distintas. Por óbvio até, porque você tem que comer todo dia. O resto tudo se adia. E se tem uma variação na renda, há uma variação muito grande no não alimentar. No alimentar é menor.

O varejo alimentar, então, está otimista?

Está todo mundo abrindo loja nova, expandindo. Porque todo mundo tem que comer. Tem uma pequena variação no mix de produtos, a pessoa compra um produto mais barato, e claro que existe variação de receita. Mas não é da morte. Se alguém no setor alimentar está morrendo é porque é ruim, mal de gestão ou já carregava problemas anteriores.

Do ponto de vista de gestão, qual é a melhor estratégia para lidar com crises?

Tem dois tipos de empresa muito importantes. As que quando chega uma crise se dedicam a cortar custo (essas são perigosas, no meu ponto de vista). E tem aquelas que quando chega a crise se dedicam a aumentar a venda. Porque a melhor maneira de cortar custo é aumentar a venda. Tenho 40 anos nesse mercado e só tive sucesso porque eu sempre acreditei que podia roubar mercado dos outros. Agora, se você quer preservar lucro na crise, aí o risco de morrer é muito grande. Porque você começa a cortar pessoal, os melhores funcionários são mais caros, vão sendo dispensados. E deixa de tratar das coisas, das pessoas, porque o varejo é feito de pessoas.

Em supermercado, as empresas querem atender rico, pobre, todo mundo, sem saber qual é o perfil do cliente dele. Aí morre, porque aumenta o custo. Você tem que focar exatamente em qual é o seu  público.

Tem que pensar assim: O consumidor faz parte dos meus ativos. Não posso perder de jeito nenhum. Não posso deixar faltar mercadoria, tenho que dar atenção a quem atende.

Tem algum exemplo prático nesse sentido?

Eu lembro de um empresário americano de uma grande empresa de tecnologia que não tinha sócio nenhum e a empresa dele era uma das melhores empresas para se trabalhar no mundo. Ficava na Carolina do Norte. O pessoal lá ganhava metade do salário de mercado, mas não saía de jeito nenhum porque tinha clube, escola para os filhos, muitos benefícios.  Era quase uma filosofia. Quando entra um fundo de investimento que quer lucro de curto prazo é complicado.

Experiência do consumidor é importante para o supermercado?

Renda é determinante. Hoje você fala da experiência do consumidor, CX, transformação digital. Eu não discordo que existe loja Fasano, Empório Fasano,  lojas autônomas, mas isso são pílulas no nosso mercado. O maior domínio do mercado hoje está sendo atacarejo. Por quê? Por causa de serviço? Não. Por causa de preço. Essa é a realidade brasileira. Então eu sou muito pé no chão nesse sentido.

O que acontece hoje no varejo não alimentar é uma repetição dos anos 80, 90, quando fechou Arapuã, Casa Centro, G Aronso, Muricy. E isso tem a ver com renda. Não tem segredo.

No ramo alimentar, que diferença faz pro consumidor se a loja tem self-checkout ou não? Ele quer pagar mais barato e se sujeita a ir em um atacarejo.

O que os empresários esperam do Brasil?

Tem uma diferença muito grande das empresas de dono e empresas de capital aberto. Quem tem que dar satisfação pra analista, bolsa, fica com o pé atrás. Mas os donos estão otimistas. Tem plano de expansão ocorrendo, gente abrindo loja e ninguém reclamando. Até porque, se você olha essa ajuda emergencial do governo, isso dá um acréscimo substancial no mercado para o varejo alimentar. Ninguém vai comprar mais televisão com R$ 600.

Qual é o futuro dos minimercados e dos atacarejos no Brasil?

Minimercado das grandes redes são pra metrópoles, porque têm um crescimento limitado. São lojas de conveniência, não conseguem concorrer com um regional pequeno. O custo de operação é maior, o custo logístico é maior. Dificilmente vai ter uma loja dessa numa região em que tenha muitos regionais bons.

Agora, com os atacarejos o que acontece? O custo de montar um atacarejo é menor que o do supermercado, porque o piso é mais simples, o teto é mais simples. Só que agora começa a encarecer. Já estão instalando ar condicionado, que não tinha. Pondo serviço, que não tinha. Essa transição eu não sei pra onde vai, mas sem dúvida vai ter um problema a médio, longo prazo. Porque os custos da operação estão subindo, os fornecedores estão subindo os preços pros atacarejos, porque eles precisam atender o pequeno comerciante e pra atender o pequeno comerciante precisam dar preço pro distribuidor. A diferença de preço dos supermercados pro atacarejo está diminuindo. Vai chegar um momento que não vai valer  a pena você ir até o atacarejo.

Ninguém tem coragem de montar uma Costco aqui, com poucos itens de muito baixo preço e volume.

Para ouvir a entrevista completa, com todos os bastidores e causos contados pelo Escudeiro, acesse nossos canais no Spotify e no Youtube.

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